Conselhos de Maquiavel ao presidente - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de dezembro de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Se observarmos com cuidado o passado e o presente, veremos que há uma essência que nunca muda nos comportamentos e nas ações dos homens quando se trata de política. Desse modo, seria conveniente que os governantes de vez em quando lessem O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, sempre que tivessem que tomar decisões importantes como, por exemplo, a escolha dos ministros. E esse é justamente no momento um dos assuntos que o presidente Fernando Henrique Cardoso deve equacionar, com exceção dos ministros já por ele reconfirmados nos seus cargos como é o caso de Pedro Malan, da Fazenda, José Serra, da Saúde, e Paulo Renato de Souza, da Educação, além do presidente do Banco Central, Gustavo Franco. Para preencher os demais ministérios, o presidente deveria reler alguns conselhos de Maquiavel.
Vejamos, então, algumas sábias advertências do gênio da política, que servem também para governadores quando estes deparam com a difícil tarefa de escolher seus secretários, ou para todos aqueles que, em posições de comando, necessitam compor um corpo de assessores que lhes auxilie na complexa tarefa de administrar:
A escolha dos ministros por um príncipe não tem pouca importância: os ministros serão bons ou maus, de acordo com a prudência que o príncipe demonstrar. A primeira impressão que se tem de um governante, e de sua inteligência, é dada pelos homens que o cercam. Quando estes são competentes e leais, pode-se sempre considerar o príncipe sábio, pois foi capaz de reconhecer a capacidade e de manter fidelidade. Mas quando a situação é oposta, pode-se sempre fazer dele juízo desfavorável, porque seu primeiro erro terá sido cometido ao escolher seus assessores.
Há um método que nunca falha para que o príncipe possa conhecer um ministro. Se o ministro pensa em si mais do que no príncipe, e busca em todas as ações o próprio lucro, nunca será um bom ministro, e não deve merecer confiança, pois quem tem em suas mãos um Estado não deve pensar em si, mas no monarca, não devendo se importar com nada que não diga respeito a este. O príncipe, por outro lado, para manter a fidelidade do ministro, deve pensar nele, honrando-o e enriquecendo-o, fazendo-lhe favores, conferindo-lhe honrarias e atribuindo-lhe incumbências de responsabilidade, de forma que as grandes riquezas e honrarias já recebidas não lhe provoquem desejo de mais riqueza e honrarias, e as funções que exerce o façam temer as mudanças. Quando os príncipes e seus ministros se relacionam dessa forma, podem depender um do outro; em caso contrário, o resultado é sempre prejudicial para um deles.
Eis aí sábios conselhos, pouco seguidos porém pelos que governam e, que ao contrário, preferem manter junto de si verdadeiras nulidades para que não haja perigo de serem sobrepujados por alguém mais competente. Isso ocorre com frequência em nosso País, atestando a fragilidade dos que nos governam nos vários níveis da hierarquia do poder ou, então, através de governantes coagidos a aceitar tais nulidades por imposição do jogo político. Neste último caso, porém, comete erro o governante que se deixa influenciar por imposições que acabarão no futuro trazendo-lhe mais problemas do que soluções.
O assunto da escolha dos ministros, que aparece neste momento na vida nacional, deveria pois trazer para a reflexão de cada um de nós, enquanto cidadãos brasileiros, a necessidade da utilização do critério da capacidade individual para a escolha da equipe que ajudará o presidente a governar o País no seu segundo mandato que, segundo circunstâncias e previsões, será mais difícil do que o primeiro.
Neste sentido, não fica difícil entender porque, por exemplo, é certo cogitar o nome de Rafael Greca de Macedo para auxiliar o presidente num ministério. Não falta ao deputado mais votado do Paraná, além de sua inteligência privilegiada, uma alma de poeta e um espírito de César, ou seja, a sensibilidade no âmbito humanitário, e a firmeza de convicções no trato com a coisa pública, atributos estes tão necessários aos políticos e tão raros em meio a esta classe.
Ao mesmo tempo, é quase certo que Rafael Greca, se alcançar o cargo de ministro, transbordará de forma mais nítida seu sentimento de paranidade para o de brasilidade, algo que também costuma faltar entre seus pares, os quais costumam zelar de forma bem mais acentuada pelos benefícios próprios do que pelos da Nação. Esperemos, portanto, que o presidente Fernando Henrique siga os conselhos de Maquiavel se voltar os olhos para o Paraná.
Mas se por um lado o presidente parece não desconhecer o pensamento de Maquiavel, o que é um elogio a seu agir político e não uma crítica, por outro às vezes incorre em certas falhas que podem lhe ser prejudiciais. Isto pôde ser visto recentemente através do convite que fez a seu opositor, Luiz Inácio Lula da Silva, para visitá-lo, pois como disse o mestre da ciência política: Quem cria o poder de outrem se arruína, pois esse poder se origina ou na astúcia ou na força, e ambas são suspeitas a quem se torna poderoso. E afinal, por que haveria o presidente de querer conferir prestígio a alguém que já foi derrotado três vezes para o mesmo cargo que ele, que inclusive impingiu duas destas derrotas a este adversário? Será que Fernando Henrique Cardoso, como democrata e diplomata que é, pensa ser possível algum acordo com o PT através de um contato de terceiro grau com a figura emblemática deste partido?
Se assim o for, não precisa sequer reler O Príncipe. Para se convencer do seu equívoco basta ler os jornais da semana onde Lula aparece cumprimentando o presidente eleito da Venezuela, Hugo Chávez, com o qual reclamou sem grandes fundamentações: O governo tem má fé com nosso País. É o velho Lula, tentando cumprir seu papel de oposição no ultrapassado estilo sindical, e dando vazão à sua obsessão de se encontrar com autoridades máximas na ilusão de que é ele o presidente da República.
Mas como disse Maquiavel, quando a disposição do povo é propícia, o soberano tem pouco que se preocupar com as conspirações.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora em Londrina
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