Conselhos ao Rei
Max Schrappe
Desde a Antiguidade, passando pelo sistema político das monarquias da Idade Moderna ou Contemporânea, a figura do Conselheiro do Rei sempre esteve presente, exercendo influência sobre decisões que modificaram o curso da História. Este personagem, por vezes anônimo, impediu ou causou guerras, gerou inimizades, mas também evitou graves equívocos. Sua tarefa era ficar atento a rumores, intrigas palacianas e, principalmente, ao descontentamento da população. Um rei afinado com os anseios de seu povo corria menos riscos de enfrentar o usurpador do trono de plantão.
Apesar das diferenças históricas e de regime, parece que o Brasil passa por um momento em que a presença de um Conselheiro do Rei seria muito oportuna. A direção da política econômica continua firme e vencendo consecutivas vitórias contra ameaças de retorno da inflação. Técnicos de real competência ocupam cargos-chave e a seriedade impera no primeiro escalão.
As medidas vêm sempre embasadas em arrozoados teóricos e as crenças dos dirigentes aparecem de forma cristalina. Entretanto, tanta firmeza chega a assustar, pois, como ensina a sabedoria popular, o arbusto suporta mais os vendavais que as grandes árvores, justamente porque consegue curvar-se um pouco, adaptando-se às condições do vento, sem quebrar.
A manutenção da postura de juros altos e da contenção do consumo, como elementos indispensáveis para defesa do Real, vêm preocupando todo o setor produtivo nacional. As empresas brasileiras são estimuladas a direcionar seus produtos ao mercado externo, uma vez que o governo vem seguidamente promovendo medidas para reduzir o crédito ao consumidor final.
As autoridades projetam aumento em torno de 15% nas exportações, mas, ao mesmo tempo, a política de juros altos vem trazendo novas dificuldades ao financiamento das empresas, encarecendo a produção e, assim, inviabilizando preços competitivos em nível internacional.
Se o Conselheiro do Rei saísse às ruas para ouvir a população, certamente saberia que muitos setores estão ansiosos para demonstrar suas necessidades e apresentar sugestões para desatar alguns nós que a própria equipe econômica não tem conseguido superar.
Saberia que, apesar de contrário às recomendações de organismos como o FMI, muitas pessoas apostam mais no fortalecimento do mercado interno que no incremento das exportações como forma de estimular o crescimento da economia e, mais importante, garantir a sobrevivência das empresas.
No campo das reivindicações, este suposto ouvidor receberia sugestão de que o BNDS contribuísse para que as empresas realizassem novos investimentos, através de linhas especiais de crédito. Também escutaria reclamações contra os incentivos fiscais fornecidos em outros países, em que o financiamento é de longo prazo e com taxas entre 3% e 4% ao ano.
O empresariado nacional e os trabalhadores estão dispostos a colaborar, participando de discussões setoriais com os responsáveis pela condução da economia. O governo não vive ameaça de golpes ou desestabilização política, mas, seja qual for o período histórico ou por mais absoluto que seja o poder de um governante, nenhum político que se preze deve desprezar a opinião daqueles que produzem sua riqueza.
Para não ficar só aguardando serem ouvidos, um grupo de empresários lançou, no último dia 13, o Movimento de Valorização do Produto Brasileiro. Reunindo representantes dos setores gráfico, têxtil, eletroeletrônico, brinquedos, papel e celulose, embalagens, ótica, cosméticos e perfumes, o grupo está lançando campanha estimulando que a população brasileira consuma produtos fabricados no Brasil, desde que apresentem algo padrão de qualidade e preço competivo. Estas mesmas lideranças - e outros que se apresentem publicamente com esta vontade política - já se colocam à disposição para servir como interlocutores do governo, caso haja interesse.
Não se trata aqui de defender a criação do cargo de Conselheiro do Rei, com salário elevado, mordomias e aposentoria oficial, na contramão da Reforma Administrativa, mas de solicitar que os dirigentes abram corações, mentes e ouvidos, aliando pequena dose de humildade e sensibilidade à competência técnica demonstrada até o momento.
- MAX SHARAPPE é presidente da Associação Brasileira da Indústria Gráfica (Abigraf), primeiro vice-presidente da Fiesp/Ciesp e integrante do Movimento de Valorização do Produto Brasileiro

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