Com a preocupação com o planeta aumentando a cada dia, torna-se imperativo passarmos a agir de maneira mais consciente. Assuntos como sustentabilidade e responsabilidade social estão presentes em tempo integral na mídia, nas empresas, nas escolas. A grande questão é sair do discurso e partir para a prática.
Em 2006, a Organização das Nações Unidas (ONU) incumbiu um grupo de reitores e diretores de escolas de negócios de vários países de construir um conjunto de princípios que norteassem a educação empresarial dos próximos anos, de acordo com conceitos voltados à sustentabilidade. Surgiram então os Princípios para a Educação Empresarial Responsável - Principles for Responsible Management Education (PRME).
Norman Arruda Filho, superintendente do Instituto Superior de Administração e Economia (ISAE/FGV) - conveniado da Fundação Getúlio Vargas em Curitiba - , é um dos três brasileiros que participaram da elaboração do PRME.
Amanhã ele participa em Nova Iork do PRME Global Fórum 2010, evento que reúne representantes de instituições de ensino do mundo todo para discutir a implementação dos Princípios. ''Fui convidado pela ONU para fazer uma apresentação sobre como uma escola pode sair da teoria e colocar os princípios em prática.'' Antes de viajar, ele concedeu entrevista à FOLHA, na qual aborda, entre outros temas, o papel das instituições de ensino na formação dos líderes do futuro.
Quais são os Princípios da Educação Empresarial Responsável?
A ONU promoveu um trabalho envolvendo 50 grandes escolas de negócios do mundo inteiro no sentido de construir de uma forma conjunta, respeitando as diferentes culturas, o que seriam os princípios gerais para um novo modelo de educação executiva responsável, que pudesse refletir o processo de formação de novos líderes.
Esses princípios levavam em consideração questões básicas como a adoção, a divulgação, o estudo e a valorização de um conjunto de atributos e valores que não necessariamente representassem aspectos de natureza de teoria acadêmica.
São valores que dizem respeito à ética, à liderança, à transparência, às boas práticas de governança, às questões de natureza do empreendedorismo, às questões em termos de inovação - mas a inovação voltada à sustentabilidade, à responsabilidade social corporativa.
E as nossas empresas já estão seguindo essas diretrizes?
Você observa um movimento cada vez mais crescente. Analise as propagandas das principais empresas no setor financeiro, por exemplo. É o banco do planeta, banco da sustentabilidade, banco que respeita a diversidade, é o banco que respeita a responsabilidade social e a sustentabilidade como seus valores principais, inclusive na concessão de créditos.
Internacionalmente você começa a ver empresas nas quais a questão do respeito às questões ambientais, às questões dos direitos humanos, às questões anticorrupção, são fatores determinantes nas compras e nos negócios. Isso significa que há consideração de valor.
E as escolas de negócios já estão seguindo esse novo padrão?
Globalmente, temos hoje mais de 300 escolas que são signatárias do PRME. Dentro desses princípios de uma educação executiva responsável você tem um conjunto de escolas que refletem isso como posição já assumida. Essas 300 escolas também têm o papel de chamar outras escolas a repensar estrutura de grade curricular.
Nós estamos caminhando para uma nova economia, um novo modelo de desenvolvimento. Não é um desenvolvimento a custa de dinheiro em cima de dinheiro. Isso não é sustentável, não há sustentabilidade compatível com a fome, com a miséria, com a injustiça social.
Quando deve começar o ensino da sustentabilidade? Tem colégio que ensina sobre reciclagem, por exemplo. É esse o caminho?
Isso é o começo. A mudança de cultura para a sustentabilidade começa com pequenas iniciativas. É o fechar a torneira, é o separar o lixo, é o racionalizar o uso, é o apagar a luz, é o devolver a borracha que eu pedi emprestada para o companheiro de classe, é o não forjar o nível de conhecimento em uma prova, é o repensar do próprio modelo educacional como a formação das crianças, dos jovens, não apenas em termos de conhecimento, mas sim do saber fazer, do saber ser, do saber conviver, que são outros modelos educacionais.
Eu tenho que aprender a aprender, aprender a conhecer, aprender a ser, aprender a conviver, que são atributos de formação que vão dar um novo padrão de comportamento. É muito mais fácil através de um sistema de formação desse tipo eu sensibilizar uma geração que vai eliminar os desperdícios, que vai repensar a utilização de materiais ou de serviços que são demandantes. Começamos a ver determinadas tecnologias que vão exigir um outro tipo de formação.
As empresas já estão colocando essas atitudes em prática?
Em alguns lugares isso já começa a acontecer por força legal. Em São Paulo e no Rio de Janeiro há legislação estadual com vistas à redução dos níveis de emissão de gás carbônico com relação ao processo produtivo das empresas e dos seus fornecedores. A questão não é mais apenas a empresa, é a empresa e sua cadeia de produção. Você começa a observar que é um movimento sem volta, progressivo, do qual ninguém mais quer ficar de fora. Ninguém quer ter um produto, um serviço, uma empresa que esteja contribuindo para a degradação do meio ambiente.
Uma empresa que não tem preocupações reais com práticas sustentáveis conseguirá se manter no mercado?
Cada vez mais ela se torna menos competitiva. Hoje a questão da sustentabilidade e da responsabilidade social são fatores chaves de competitividade. São atributos em relação aos quais o mercado reconhece o valor.
Na área educacional, como fazer para que os conceitos não fiquem apenas no discurso e sejam colocados em prática?
O primeiro grande desafio é o princípio da autorreferência. E esse princípio parte de que eu, como uma escola de negócios, tenho que exercer a sustentabilidade no meu habitat, nas minhas relações. Eu não posso ser uma escola que adote procedimentos antiéticos e que vai ensinar ética e responsabilidade social. Isso vale também para as empresas em relação aos seus parceiros.

mockup