Quando o ''Plano Real'' completou seu primeiro ano, muitos economistas entre os quais me incluo, chamaram a atenção para os riscos de se manter o dólar artificialmente barato e, também, para a obsessiva preocupação em zerar de estalo a inflação desconsiderando questões básicas da vida de uma nação. Fomos chamados de tudo, fracassomaníacos, neobobos, impatriotas e por aí vai. Mas o tempo acabou mostrando quem é o que.
Com a manutenção do dólar artificialmente barato, gerou-se uma desagregação em cadeia nas nossas contas externas, pois ficou mais barato importar do que produzi-los aqui, viajar para o exterior do que pelo Brasil, etc. Os erros começaram com a queima de reservas cambiais para manter as cotações artificiais do dólar, depois com a elevação dos juros para atrair capitais especulativos e finalmente com as tomadas de empréstimos.
As consequências continuaram se desdobrando. Nos últimos três anos as contas externas têm apresentado rombos superiores a 50 bilhões de dólares, mais do que o valor de três usinas tipo Itaipu, a maior do mundo, a cada ano. Para equilibrar essas contas foram necessários investimentos estrangeiros (tanto produtivos como especulativos) e mais dinheiro emprestado, como os três empréstimos do FMI.
Como resultado o País cresceu a taxas mínimas, pois os produtos nacionais não conseguiam competir com os importados, que pela artificialidade do câmbio recebiam uma espécie de bonificação do governo. Assim, as nossas empresas, os nossos empregos, e mesmo famílias, foram sendo destruídos. Até carvão para churrasco foi importado.
Milhares de negócios quebraram, chegamos ao redor de 11 milhões de desempregados, a concentração de renda aumentou, a classe média empobreceu, os pobres viraram miseráveis. A elite urbana brasileira não percebeu, mas foi ela a maior perdedora. A burguesia nacional caiu na escala econômica de tal maneira que hoje vive de negócios menos importantes e continua caindo. Raros são os grandes industriais e comerciantes sobreviventes. Acabou-se o João, quem quiser falar com o dono procure o John.
O País endividado e com a saúde econômica debilitada, vê a soberania nacional se diluindo e se tornar uma presa fácil para os especuladores internos e internacionais, como acontece na vida selvagem, onde os predadores preferem atacar os indivíduos mais frágeis.
Tomando as cotações de 1990 e ajustando monetariamente, o dólar deveria estar hoje por volta de R$ 3,10. As cotações estão explodindo, em parte pela busca do seu ponto de equilíbrio e em parte pelo processo especulativo, mas os ''analistas de aluguel'' tratam de desinformar e aterrorizar a população, usando inclusive argumentos sórdidos como por exemplo as tendências eleitorais, crise na Conchichina, neve, seca...
Não tem conversa: sobe por que é a lógica da lei da oferta e da procura. Mas com o dólar subindo, automaticamente crescem a economia, os empregos e as empresas, puxadas pela substituição das importações e pelo estímulo às exportações, gerando mais riquezas, oportunidades internas e saldos comerciais positivos. Isto é exatamente o que tenho indicado nos meus estudos e que se comprovam na demonstração adiante.
Deixando o dólar barato nossos saldos comerciais despencaram arrastando toda a economia. Somando o que deixamos de ganhar, pelas perdas de mercados de outros países que já tínhamos ocupado, com o que passamos a perder, em sete anos resultou um buraco de mais de 110 bilhões de dólares, ou seja umas seis usinas de Itaipu. Mas se somarmos a isso os custos decorrentes, especialmente os financeiros, o número é monumental.
Felizmente no segmento rural, onde somos dos mais competitivos no mundo, ainda sobrou um pouco de poder em mãos de brasileiros, por isto nele repousa a esperança de recuperação econômica e da soberania.
Mesmo sem reduzir juros, impostos, custos logísticos, subsídios dos países ricos, etc., mas tão-somente porque o dólar subiu, a economia reacendeu, os produtores de todos os ramos estão investindo para aumentar a produção, o emprego e tentar recuperar parte dos mercados perdidos.
Como o governo perdeu a capacidade de controlar o câmbio, os brasileiros vão reconstruir o País e com passos seguros, baseados na economia da produção e dos empregos e não na economia financeira, obsessão de nossos insensatos dirigentes.
LUIZ ANTONIO FAYET é economista e consultor de empresas

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