Segundo pesquisa da Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e Negligência na Infância (Sipani), em média 18 mil crianças são vítimas de violência doméstica por dia no Brasil. O perigo está mais próximo do que se imagina. De hora em hora, de acordo com o Unicef, morre uma criança queimada, torturada ou espancada pelos próprios pais.
A psicóloga paulista Rosemary Naomi Setokushi Ferreira vai além e cita levantamento realizado pelo Instituto Herdeiros do Futuro (IHF), que presta atendimento a crianças vítimas de maus tratos por parte de familiares em São Paulo.
No estudo, 92,8% dos casos de violência doméstica atendidos pelo IHF foram provocados por pais que também sofreram algum tipo de agressão na infância. ''O que todos os agressores têm em comum é a falta de carinho e cuidado na infância'', alerta.
Pela experiência no IHF, a quais fatores a senhora atribui a violência praticada por parte dos pais?
Vários são os fatores que contribuem para a ocorrência da violência doméstica. Há os físicos, os psicológicos, a negligência e o abuso. O que todos os agressores têm em comum é a falta de carinho e cuidado na infância. Faltando-lhes referência, surgem os problemas emocionais e a desestruturação interna, fazendo com que o indivíduo tenha pouco controle e ciência sobre o que sente. Uma das formas de expressão dessa desestruturação interna é a agressividade. Devemos ter ciência de que cada caso é um caso. Questões internas agregadas a questões externas como a questão cultural (bater para educar), a falta de educação e a falta de condição mínima de subsistência podem levar a comportamentos agressivos. Todos esses fatores contribuem para as ocorrências, porém a experiência tem nos mostrado que o fator primordial e relevante para que a violência doméstica ocorra é a falta de referência de um cuidado afetivo.
Quais as formas de prevenção à agressividade?
Pensar em alguns trabalhos preventivos, como palestras em escolas, creches, tanto para pais quanto educadores, para que possam identificar a situação. Descrevendo nessas palestras atitudes, situações, sintomas que denunciam a violência. Em creches e escolas torna-se fundamental, pois é preciso que os sintomas sejam identificados para que possam ser cuidados.
Em se tratando da violência doméstica, o perigo está mais próximo do que se imagina. Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) mostram que 80% das agressões físicas contra crianças e adolescentes foram causadas por parentes próximos...
Diante dos dados descritos pelo Unicef, vários são os níveis de ações a serem desenvolvidos, acreditamos que a sociedade insira-se nestas ações. É preciso que a sociedade denuncie os casos em que tenham ciência que a criança corre risco para que as instituições como o Conselho Tutelar possam intervir. Porém isso não basta. Ações integradas entre o Poder Público, as entidades do terceiro setor e a própria sociedade são necessárias. O diagnóstico precoce em crianças e adolescentes é muito importante para que não se reproduza a violência no futuro.
O diagnóstico não basta, é preciso agir...
Identificar a violência não basta, pois nos deparamos com outro problema, que seria para onde encaminhar essa demanda. O cuidado com a saúde mental ainda é muito pouco privilegiado em nosso país. Faltam locais de atendimento para o número de pessoas que necessitam desse serviço, tanto para o atendimento psiquiátrico quanto para o atendimento psicológico. Tanto a família como a criança necessitam desse tipo de atendimento.
Qual o tratamento sugerido para os pais e para as crianças?
O recomendado é o atendimento psicossocial individual e familiar.
Qual a forma ideal de relacionamento em família? Como promover as mudanças?
O ideal de relacionamento seria o respeito entre os membros da família, que as necessidades de cada um sejam ouvidas e levadas em consideração, que crianças e adolescentes possam ser consideradas como tal. O Atendimento Familiar é uma forma de prevenção. O programa orienta e instiga as famílias a se relacionarem de maneira em que a violência torna-se desnecessária, valorizando o respeito mútuo.

mockup