A Suécia é o primeiro país da Europa Ocidental a reconhecer oficialmente o Estado da Palestina. O anúncio foi feito pela ministra das Relações Exteriores Margot Wallstrom. Para ela, o reconhecimento é um "passo importante confirmar o direito dos palestinos à autodeterminação". A posição sueca é inédita entre as nações da Europa Ocidental, mas não é novidade em nível mundial. A cada ano, mais países declaram posição favorável aos palestinos junto à Organização das Nações Unidas (ONU).
Região marcada por conflitos que resultam em inúmeras mortes de civis, incluindo crianças, a área correspondente à Palestina até o ano de 1948 é hoje dividida entre o Estado de Israel, Jordânia, Faixa de Gaza e Cisjordânia.
Ualid Rabah, ex-presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal)e atual diretor das Relações Institucionais, ensina que a situação ficou tensa quando, depois da Segunda Guerra Mundial, Israel se autodeclarou como Estado, fazendo com que a região de Gaza recebesse os refugiados palestinos expulsos. O local é situado no Oriente Médio e faz fronteira com o Egito, ao sul, com Israel, ao norte e leste, e É banhado pelo Mar Mediterrâneo. E é alvo de disputa histórica. "Só haveria paz com o restabelecimento de todos os direitos dos palestinos", reivindica Rabah, que ministrou recentemente em Londrina a palestra "Conflitos em Gaza: o Olhar de um Palestino".
Qual é a sua avaliação sobre a atual situação na Faixa de Gaza?
A Faixa de Gaza é uma parte da Palestina histórica e não tem como falar de Gaza sem falar de todo o histórico que levou ao momento atual. E qual é o processo histórico? É a limpeza étnica da Palestina, que começa em dezembro de 1947 e se conclui na sua parte mais brutal em março de 1949, quando perto de 60% da população foi morta ou expulsa. Mais recentemente (no final do primeiro semestre do ano), ocorreram os 51 dias que levaram a mais de duas mil mortes, perto de 15 mil feridos e à destruição de quase toda infraestrutura do território, que tem perto de 1,7 milhão habitantes, a maior concentração de população do mundo.
Quando começa, de fato, a tomada da Faixa de Gaza?
Na verdade, a Faixa é uma parte pequena da situação. Para isso, vamos a um breve histórico: na segunda metade dos anos 1800, em virtude da perseguição que sofriam os judeus europeus - perseguidos por outros europeus não judeus e, obviamente, por árabes muçulmanos ou não – eles resolveram tentar uma saída para seu sofrimento, especialmente na Europa Oriental. A saída para isso era a constituição de um Lar Nacional. Não havia uma definição de onde seria esse Lar Nacional ou Estado Nacional, já que na Europa se dava ainda a construção dos Estados Nacionais. Os judeus, portanto, nesse momento, resolvem começar a elaborar a ideia de um sonho nacional, inaugurando um movimento político chamado Sionismo. Este que, em 1897, na Basileia, define que o sonho deve ser realizado na Palestina. Vieram outras ideias de local, como Uganda, Argentina e há quem diga hipóteses que aventavam até mesmo a Amazônia. Porém, definem que a Palestina é o destino desse sonho porque havia referências bíblicas testamentárias. E todo sonho nacional precisa de um mito nacional. E já havia um mito pronto, o mito bíblico, o mito da promessa. Claro que no caso os Palestinos são o único povo do mundo que está subordinado a um decreto divino. Não há nenhum outro povo que possa dizer isso.
Como se dá esse movimento nacional?
Em busca de apoio do colonialismo europeu para a construção do Lar Nacional na Palestina. Quem aquece isso é a Inglaterra, que, em 1917, faz uma declaração que diz que sua majestade vê com simpatia a construção de um lar para judeus na Palestina. Essa imigração de palestinos, basicamente judeus, é apoiada pelo colonialismo britânico. Enquanto isso, o movimento palestino é sufocado violentamente pelo império britânico a ponto de, ainda em meados de 1930, a totalidade da liderança cultural, política e intelectual ou ser presa, ou ser expulsa, ou morta. É dessa maneira que o império britânico destrói o movimento nacional palestino e apoia o movimento sionista dos judeus europeus que tinham também mentalidade colonial com vista a construção do seu Lar Nacional.
E a divisão propriamente dita?
Em 29 de novembro de 1947, a ONU aprova um relatório - e esta é minha opinião, e também está nos documentos - de uma comissão que recomenda a partilha da Palestina. Essa recomendação jamais aprovou a partilha da Palestina. Esta é a resolução 181 e comete uma injustiça sem precedentes, pois divide a Palestina dando, ao que seria o Estado de Israel, a parte mais fértil e as melhores saídas para o mar, bem como as melhores porções fronteiriças. Além do mais, outorga à Israel 54% do território e aos Palestinos, 45%, além de 1% de área internacionalizada. Os palestinos eram mais de dois terços da população. Na verdade, eram mais de 70% da população. E a população judaica, menos de 30%. Veja o quanto foi criminosa a partilha da Palestina.
Quais foram os piores momentos da disputa?
Logo que se dá a recomendação do relatório, ali se dá a limpeza étnica, 60% de uma população morta. Depois disso, acontecem os eventos cataclísmicos de 1967, quando mais uma parte da população palestina é expulsa e Israel invade o Egito e depois a Síria. Todas as guerras foram mitos de ficção: como podem dois países ingressarem em próprios territórios seus ocupados ilegalmente por Israel e cuja resolução 242 obrigava a se retirar deles? Depois temos ainda o aprofundamento da ocupação do Líbano até Beirute e o cerco da cidade por várias semanas, com bombardeio incessante da população civil.
Não podemos esquecer dos campos de concentração da população civil no Líbano e dos refugiados palestinos. Podemos dizer, na verdade, que as agressões à Palestina nunca cessaram. O mais recente, os 51 dias de bombardeio cessados há poucas semanas.
E desde então a situação tem sido essa, somente disputa pelo fator territorial?
Podemos afirmar que é rigorosamente isso.
A questão não vai além, não tem a ver com poder político ou religioso?
A questão é exclusivamente territorial. É a luta pelo reconhecimento do Estado da Palestina, da totalidade dos direitos humanitários e civis, o retorno de todos os refugiados. Além disso, o respeito e a aplicação de todas as resoluções da ONU, uma delas a 193, que determina o retorno e a indenização dos refugiados e dos prejuízos que sofreram. Essa resolução, inclusive, Israel foi obrigado a acatar, porque senão não seria admitido como membro da ONU, mesmo sendo reconhecido pelas grandes potências. A resolução 142 diz ainda que Israel deve evacuar suas forças de todos os territórios conquistados pela violência. E isso não foi feito até hoje.
O que falta para as resoluções serem implementadas?
Só os EUA deixarem de vetar no Conselho de Segurança da ONU. Mais nada, já que o Estado da Palestina é reconhecido praticamente no mundo inteiro.
Como seus familiares relatam a situação lá?
Muito ruim. Segue a limpeza étnica na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, já que continuam ocupando o local. Também há a construção do muro com mais 700 quilômetros recortando o território palestino e tomando quase um terço da Cisjordânia, confiscando quase a totalidade das nascentes. Segue ainda a apropriação de terra no Vale do Jordão, a parte mais fértil da Cisjordânia, os impedimentos de movimento dos palestinos por meio de 700 postos de controle, o confisco ilegal da área de Jerusalém, e proibição de construções palestinas em Jerusalém. E há, ainda, o apartheid recrudescido por uma legislação de discriminação racial. Não há pior quadro para um povo no mundo.
A paz é possível nesse cenário?
Só será possível falar com honestidade em paz quando houver reconhecimento da destruição e da ocupação da Palestina. Os palestinos têm direito à autodefesa e, para isso, têm direito a promover todos os esforços, inclusive os bélicos, se forem necessários. E é o caso. Acontece que a força é totalmente desproporcional. Israel ataca um povo ocupado só para continuar o confisco e a expulsão total para se apoderar de toda a Palestina. Só haveria paz com o restabelecimento de todos os direitos dos palestinos, inclusive o direito de retorno, e se Israel se retirar de tudo que possui ilegalmente. Também é necessário reconhecer Jerusalém, na sua parte Oriental, como capital da Palestina, acabar com colonização ilegal e derrubar o muro. Ainda temos a maior população carcerária, mantida como tal por crimes políticos em cárceres israelenses. E, por fim, a Palestina voltar a ser um Estado e não uma área, obedecendo a totalidade do ordenamento legal internacional. Isto é paz. Fora disso é mito.

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