Conflito entre poder e compromisso
O poder deve ser algo realmente deslumbrante. E o prazer de chegar lá, então, deve ser indescritível. Tanto que os políticos fazem qualquer negócio para conquistar o poder. A manchete de ontem do jornal O Estado de São Paulo (''Em carta a religiosos, Dilma promete manter lei do aborto'') é prova do esforço dos políticos para agradar. A candidata petista divulga compromisso contra a descriminalização da interrupção da gravidez, que ela defendeu. O negócio é estigmatizar o aborto. Aquilo, agora, passa a ser coida do capeta. Aborto não soma, subtrai (votos), mesmo quando disfarçado de eufemismos ou variantes vocabulares, que amenizam o impacto.
O direito de mudar de ideia é sagrado e quem muda nem precisa justificar. Mesmo assim cabe perguntar: como ficam aquelas pessoas - médicos, cientistas, lideranças feministas - signatárias, ou defesoras, da proposta cujo argumento era, por exemplo, a libertação da mulher diante, digamos, de uma gravidez indesejável? O ''como ficam'', no caso, é com relação à tese da candidata. Houve embasamento científico para justificar a nova posição? Seria plausível.
Quer saber de uma coisa? Isto pouco importa. O que importa, agora, às vésperas da eleição, é que a maioria é contra aquele palavrão. E eleição é uma equação matemática linear: ganha quem tem mais votos. Logo, a lógica aplicada aponta para o grosso do eleitorado. Os outros, os da descriminalização, são minoria; são nicho e com nicho negocia-se compensações. Vale até a crença de que, perante eles, a nova posição é apenas pró forma.
Se a mudança do ponto de vista é legítima, não se pode dizer o mesmo do objetivo do documento divulgado por Dilma. Segundo a reportagem, ela quer ''pôr fim à campanha de calúnias e boatos dos adversários''. Não precisava. A tese do aborto mexe com o emocional de todos, independente da posição, contrária ou favorável, ou da religião que se professa. Debates não são campanha caluniosa. Além disso, quem tem posição convicta é porque tem posição, independente da repercussão. Políticos e cidadãos em geral não podem falar apenas o que os ouvintes gostem. Às vezes, a coerência é mais eficaz do que a mudança de atitude, principalmente nessas circunstâncias.





