Confissão de culpa - Arlete Salvador
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de janeiro de 1999
Arlete Salvador 
É preciso enfrentar a realidade: o sonho acabou. O Plano Real já era. Por mais que detalhes técnicos da economia estejam sendo usados para garantir que a estabilidade continua, a verdade nua e crua é que o Plano Real fracassou. Do mesmo jeitinho que fracassaram os planos econômicos anteriores - Cruzado, Collor, Bresser, seja lá qual for o nome que tivessem no passado. Depois de um período de euforia e alegria, o milagre econômico virou pó.
Pode-se discutir o tamanho do fracasso ou o tamanho da vergonha que o plano proporcionou, mas não o fato de que o sonho dos últimos quatro (ou cinco anos, dependendo da conta) virou pesadelo. No final de 1998, quando o País recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI), houve uma certa elegância, como já disse o deputado Delfim Netto. Agora, nem isso. A derrota do mais recente projeto econômico brasileiro foi incondicional e vexatória. O ministro da Fazenda, Pedro Malan, que o diga.
O leitor, com certeza, já ligou várias vezes durante a semana para o gerente do banco onde tem algum dinheirinho guardado para saber quanto perdeu ou como investir melhor. Aqueles que compraram a casa própria olham assustados para a altura das taxas de juros e calculam o prejuízo. Quem tem emprego reza.
Essa era a rotina antes do Plano Real. O País está de volta a ela e tudo indica que a tortura continuará por meses e talvez anos. Uma certa estabilidade econômica está fora de questão num futuro próximo, por mais que gente do governo afirme o contrário.
Portanto, constatado o fracasso do Plano Real e a nossa total incapacidade de mudar a realidade, fica no ar a dúvida sobre o que poderemos fazer daqui para a frente. A primeira providência está descrita no parágrafo acima - acostumarmo-nos de novo com a instabilidade. Não é fácil, porque ninguém gosta de se acostumar com coisas ruins, mas não há outra opção. Depois, é preciso começar tudo outra vez. Como aqueles empreendedores que se recuperam de uma falência arrancando energia e dinheiro de algum lugar longínquo e desconhecido para reconstruir suas vidas.
Não se trata, aqui, de nenhuma injeção de ânimo ou convite ao conformismo. Ao contrário, trata-se de reconhecer a parte da culpa que nos cabe nesse fracasso. Acreditamos porque quisemos. Deixamo-nos enganar, inebriados que estávamos pelos resultados fictícios da economia. Reelegemos o presidente da República e o Plano Real por livre e espontânea vontade. Alertas para os riscos que corríamos não faltaram - dentro e fora do Brasil. Mesmo assim, o País deu carta branca ao presidente para conduzir a política econômica como bem quisesse e governar como um imperador.
Deu nisso. Agora, não adianta chorar sobre o leite derramado, com o perdão pelo uso de uma expressão tão comum. A única coisa boa que pode resultar disso tudo é uma mudança de atitude daqui para a frente. Ainda não aprendemos nada com os fracassos dos planos econômicos anteriores desenvolvidos no Brasil. Repetimos a mesma ingenuidade crédula nos investidores, nos economistas e nos governos. Quem sabe, desta vez, pelo tamanho do tombo e de suas consequências, o País possa amadurecer de verdade.


