Conectar-se com o ladrão
Conectar-se com o ladrão
Walmor Maccarini
Minha amiga foi assaltada no sinaleiro. Vidros do carro abertos, bolsa no banco do passageiro, o assaltante chegou de repente numa moto e nem foi preciso mão armada. Bastou alcançar a bolsa e sair em disparada. Minha amiga começou a gritar histéricamente e prostrou-se, o carro imobilizado, o sinal abriu-se e fechou-se, abriu-se novamente, e ela ali atrapalhando o tráfego. Os motoristas homens que conseguiram desvencilhar-se e não sabiam o que havia ocorrido, não pouparam: - Só podia ser mulher!
Minha amiga, afinal, conseguiu chegar ao escritório do marido. Nessas horas maridos são fundamentais. Muito nervosa, gritando que o ladrão lhe havia sequestrado a bolsa.
Calma, calma - consolavam os que se achegaram. O marido imperturbável. Não era a primeira vez que assistia a ataques da mulher. Homens são sempre tão compreensivos e pacientes com as esposas.
Quando as amam.
Mas o interessante da história se desenrolaria depois. Lembrou-se, minha amiga, que na bolsa estava o telefone celular. E imediatamente ligou para o próprio. O ladrão atendeu.
(Esta história não teria graça se não fosse verídica. Aconteceu dias atrás em Londrina).
- Seo ladrão, o senhor roubou a minha bolsa!
(Minha amiga o tratou de senhor).
- O senhor é um ladrão - ela proferia ao telefone. Mas não era em tom agressivo, era mais um desabafo, um princípio de diálogo.
- Seo ladrão, como é que o senhor faz uma coisa destas?
(Só faltou dizer Jesus te ama). Essa conversa, até então, não sensibilizava o ladrão. Mas ele escutava.
- O senhor tem que devolver a minha bolsa!
(O ladrão ainda não tinha dito palavra. Mas percebeu logo que era uma mulher fina, até pelo perfume deixado no celular).
E afinal, ela, mais calma:
- Tá bom, seo ladrão, o senhor pode ficar com o dinheiro, só devolva o óculos que está dentro da bolsa, foi presente do meu marido, ele trouxe da Itália, custou 500 dólares; os documentos e o telefone, e tudo bem.
Então ouviu a voz do ladrão:
- Legal, madame, qual é a proposta?
(Minha amiga não tinha proposta nenhuma. Mas alimentava a conversa. De repente um telefone tocou):
- Licença, madame, é o meu celular chamando - pediu o ladrão.
O diálogo é retomado:
- Tá bom, seo ladrão, devolva só o óculos e os documentos. O senhor fica com a bolsa, o dinheiro, a carteira, o celular, tudo o que estiver na bolsa, mas devolva o óculos. Esse óculos...
- Já sei - interrompeu o ladrão -custou 500 dólares, seu marido comprou na Itália.
- O senhor não vai fazer nada com o óculos, vai? Se o senhor for vender não pega nem 20 reais, ninguém vai dar valor. Olha, eu lhe dou 50 por eles.
- Legal, madame, aguenta aí. Me liga mais tarde, agora tenho um serviço.
Ela dá um tempo e chama novamente:
- Seo ladrão, estou com receio que acabe a bateria do meu celular, este que está com o senhor. Estou falando do escritório do meu marido. Mas não se preocupe, ele não está nem aí... Por favor, não deixa acabar a bateria, olhe, o senhor pode ir a uma loja de celulares, carrega, compra um carregador se preciso, depois eu lhe pago tudo, mas não deixa o telefone fora do ar.
- Fica fria, madame, meu celular é igual ao da senhora, tenho o meu carregador...
Minha amiga suspirou aliviada.
O ladrão viu que falava com gente muito finíssima e até se deliciava com a conversa. A esta altura eram íntimos e aquela já era a quinta chamada.
- ...O senhor vem me entregar o óculos, eu não falo prá ninguém, estarei sozinha, sem polícia...
- Falô, madame, tou pensando.
Ele já deveria estar decidido a devolver tudo, menos o dinheiro, pois isto seria humilhante para um ladrão. Mas não poderia arriscar tanto. Deveria ser suficientemente esperto para não cair em armadilha. Mas convencido já havia sido, e acabou concordando que deixaria em determinado lugar a bolsa, com o óculos, os documentos e o próprio celular - pesaroso pelo celular, pois aquele perfume de mulher o deixara muito seduzido. E assim fez.
Óculos recuperado, minha amiga até que, no the end, queria ver o ladrão. Pela simples curiosidade de mulher e porque não conseguia esconder que chegou a fascinar-se pelo envolvimento nesse affaire hollywoodiano. Parecia mesmo coisa de cinema, com a diferença de que não era ficção, mas realidade. Ademais, sentia-se vitoriosa.
Desta história ficou-lhe a lição, que já está passando para as amigas: vidros do carro sempre fechados nas paradas em sinaleiro ou em qualquer lugar. E - recomendação fundamental - nunca deixar o celular fora da bolsa quando não o estiver usando. Porque com ele na bolsa pode-se fazer conexão com o ladrão... Recomendação que também faz para os homens. Embora homens não carreguem bolsas.
A idéia parece boa. Até porque, com telefone na bolsa o motorista não fica dirigindo e falando no celular ao mesmo tempo, evita acidentes e não paga multas, e em caso de roubo da bolsa ou do carro ainda pode falar com o ladrão. Legal mesmo!
WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina





