Condições para crescer

Antonio Delfim Netto
Dificilmente a economia brasileira repetirá este ano (e quem sabe nos próximos) a medíocre performance de crescimento do PIB real verificada nos últimos três anos, quando crescemos à média anual de 1,3%. Certamente vamos crescer a uma taxa superior a essa média, mas ainda é cedo para ‘‘fechar uma aposta’’ de 5% de crescimento do PIB este ano, conforme prevêem algumas autoridades, dentre as quais o presidente do Banco Central.
Cada um de nós pode imaginar a taxa que quiser mas não existe uma base sólida para essas previsões, simplesmente porque o crescimento não está contido no passado e sim no futuro, que é opaco. O quanto nós vamos crescer depende do que está acontecendo, hoje, na economia e depende muito mais do que o próprio governo vai fazer em termos de política econômica.
Uma das variáveis fundamentais para que o crescimento se realize é a baixa das taxas de juros e isso está nas mãos do Banco Central, que tem sido extremamente conservador em sua política. Reduziu o ritmo de queda das taxas a partir do segundo semestre do ano passado e nos últimos cinco meses segurou em 19% a taxa básica para, somente esta semana, conceder uma redução de 0,5 pontos percentuais.
O viés de baixa aponta na direção correta mas é preciso reduzir ainda mais os juros, a intervalos menores, para produzir o estímulo necessário à retomada do crescimento econômico. Ainda na esfera de poder do Banco Central é preciso eliminar os embaraços causados pela recente legislação prudencial, que está produzindo efeitos contrários ao objetivo de baixar as taxas de juros. Em dezembro passado já observamos que essa legislação - extremamente avançada para um país como o nosso e por isso mesmo inadequada - iria cortar a oferta de crédito e levar os bancos a aumentar as taxas de juros, o que efetivamente aconteceu.
O ritmo de crescimento da economia vai depender, então, da correção de algumas imperfeições da política do governo. No setor privado - se podemos usar esse termo - o ‘‘viés’’ é de crescimento. A produção vem reagindo em diversos segmentos da indústria indicando um novo alento para a retomada das atividades que pode generalizar-se. O crescimento físico das exportações de industrializados é outro indicador de recuperação do setor produtivo que só foi tornada possível após a correção da política cambial que durante cinco anos engessou as empresas exportadoras.
O setor agrícola ainda sofre os efeitos da perda de renda em todos esses anos, com preços em queda e total ausência de suporte oficial. Esta semana o governo deu indícios de que vai mudar de postura em relação aos agricultores, o que reabre as esperanças de que finalmente tenhamos algum tipo de política para o setor. Se esses sinais se confirmarem, é possível que a economia brasileira reencontre a sua vocação para o desenvolvimento. Se o governo fizer a sua parte, o PIB brasileiro voltará a crescer à taxas mais decentes, ainda este ano.
ANTÔNIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB) e ex-ministro da Fazenda

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