Apesar do crescente número de concursos públicos lançados neste final de ano e da enorme quantidade de candidatos a uma vaga na administração pública, pouca gente para pra pensar no porquê de tantos concursos. Os cursinhos se limitam a ensinar matérias contidas no edital sem uma maior preocupação com a mentalidade daqueles que serão os futuros servidores do povo brasileiro, deixando os candidatos sem uma orientação sobre a função social da carreira pública e limitando o ingresso no estado como mera questão de segurança financeira. Urge então uma maior averiguação sobre a necessidade dos concursos e acerca da mentalidade exigida daqueles que intentam tal empresa.
A necessidade dos concursos tem haver com a imensa quantidade de problemas com os quais o estado brasileiro tem que lidar e que exigem funcionários com dedicação exclusiva. Carreiras como a segurança nacional, as funções legislativas e judiciárias bem como a saúde e a educação não podem ser delegadas a funcionários que não possuam um vínculo forte com o estado sob a pena de uma banalização destas carreiras e dos serviços prestados. O concurso
é a opção mais isenta para o preenchimento destes cargos, já que garante uma igualdade de condições na disputa evitando os tradicionais apadrinhamentos e facilidades tão comuns em nossos governantes. A constituição brasileira garante esta igualdade ao afirmar a via do concurso público como o caminho único para o ingresso na carreira estatal.
Desde a Grécia antiga e principalmente a partir da Roma imperial, a condução da rés
publica ou da coisa pública que compreendia os serviços de administração imperial são vistos como essenciais para a manutenção da ordem e do próprio estado enquanto instância promovedora da justiça social. Com o desenvolvimento dos estados nacionais europeus a administração da coisa pública se entrelaça com uma específica rede de apadrinhamentos que mantiveram o servidor público como uma marionete daqueles que o colocavam em seu cargo e que resultou num estado a serviço dos poderosos que se perpetuavam indefinidamente no poder. A burocracia, a lentidão e a indiferença para com os problemas do cidadão surgem como resultado desta rede de influências que se instala no estado. As nações atuais buscam de diversas maneiras evitar este apadrinhamento e o concurso público talvez seja esta maneira nova de lidar com o funcionamento da engrenagem pública tendo em vista o melhoramento da vida da maioria da população e evitando que apenas uns poucos privilegiados se perpetuem no comando da máquina pública.
Os concursos no Brasil, desde a nova constituição, se afirmam então como uma opção para milhares de cidadãos em busca de um emprego digno, bem como uma saída para modernizar os serviços prestados pelo estado brasileiro. Nos últimos tempos, no entanto, uma onda de terceirização de servidores nas estatais vem tomando proporções preocupantes. Na ânsia de economizar a qualquer custo, os últimos governos, e inclusive o atual, insistem em delegar a empresas prestadoras de serviços desde a limpeza urbana e interna das estatais até cargos de confiança que exigem um laço maior do trabalhador com o estado. Esta solução, longe de garantir uma maior agilidade na administração, coloca a coisa pública em mãos que não tem uma empatia com o estado já que não possuem vínculos empregatícios fortes com o governo. Desta maneira o estado passa a funcionar como mais uma engrenagem maquinal do que como uma administração pública voltada para o desenvolvimento do país.
A questão ética é primordial no trato com o patrimônio público, já que o estado não pode se restringir a questões pessoais e sim ter em mente a promoção do bem coletivo. O concurso público se reafirma então como o melhor caminho para o preenchimento dos cargos do estado por servidores que não se limitem a burocraticamente gerir suas funções, mas que se entreguem de corpo e alma para melhorar a administração do país. A ética que deve guiar o servidor não é apenas uma questão do seu ingresso no emprego, mas
deve pautar o comportamento
do servidor no dia a dia
de suas tarefas.
Um novo servidor público surge desta perspectiva. Não aqueles que apenas querem se dar bem e garantir seu salário ao final do mês sem muito suor. Mas sim um servidor que pense no país e que trabalhe por ele. Desta maneira o concurso passa a ser visto não apenas como um meio para a ascensão pessoal, mas como uma forma de melhorar o país e de abrir melhores perspectivas para as novas gerações.

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