Conceito de moralidade dos ateus
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terça-feira, 04 de setembro de 2012
Douglas Eduardo Queiroz 
Sempre que se tece comentários sobre a moralidade dos ateus dizem que como não possuem Deus no coração podem fazer o que quiserem. Não há nada que os impeça de cometer qualquer tipo de atrocidade. Em julho de 2010, por exemplo, o apresentador José Luiz Datena criticou severamente o assassinato de uma criança de dois anos deixando claro que pessoas que fazem aquele tipo de barbaridade só ''poderiam ser ateus''. Houve quem usasse o termo ''se existente'' quanto ao conceito de moralidade dos ateus, no sentido de se referir à hipótese de estar presente ou não na vida destes.
Qualquer ser racional possui certa moralidade, baseado em valores e vivências, independente de crença, cor, opção sexual. O grau de moralidade pode ser avaliado com base na consciência de cada ser em relação ao mundo em que vive. Mesmo um político corrupto, imoral, agindo contra a moral coletiva, possui a sua moralidade, por menor que seja.
A moralidade do homem não tem origem em Deus, como pode ser observado na história humana, pois nossos antepassados já se organizavam em padrões morais para a sobrevivência da espécie. Os valores foram - e continuam - sendo moldados a partir das experiências entre o homem, a natureza e a sociedade. O que até certo período era considerado moral, hoje pode ter se tornado imoral, como é o caso da escravidão, inferiorização da mulher, dentre outros.
Fala-se muito sobre o preconceito enraizado nos medos, fobias e na falta de respeito e amor ao próximo, simplesmente por desconhecer o indivíduo, criticado-o duramente sem o prévio conhecimento, apenas pela sua cor, crença, opção sexual ou grupo em que está inserido.
É nitidamente perceptível que a imagem dos ateus é a de alguém sem moral e essencialmente materialista, por mais virtuoso que seja, reduzindo seus objetivos de vida a apenas obtenção de capital. Cabe, portanto, as seguintes perguntas reflexivas: por que a Igreja, não sendo materialista, possui tantos adornos em ouro que poderiam ser vendidos e utilizados para a caridade? Por que muitos pastores andam com carros importados, quando a necessidade é apenas a locomoção?
As pessoas, de maneira geral, procuram os bens materiais a fim de terem uma vida confortável, mas não são essencialmente materialistas. Se tal afirmativa fosse verdadeira, as amizades seriam apenas baseadas por interesses materiais, situação esta incoerente com o estilo de vida não somente dos ateus, mas de boa parte da população, crente ou não.
Bill Gates (agnóstico), doou cerca de US$ 30 bilhões de sua fortuna ao combate das desgraças da África e à malária, convencendo outros bilionários a aderirem ao projeto ''Giving pledge'', em que doariam metade de suas fortunas para a caridade. Fidel Castro (ateu), relucionário comunista cubano, apesar de sua controversa governança política, foi o responsável por Cuba alcançar altos índices de desenvolvimento humano e social, com a menor taxa de mortalidade infantil das Américas, erradicando o analfabetismo e a desnutrição infantil, tratando gratuitamente mais de 124 mil vítimas do acidente nuclear de Chernobyl e participado na luta pelo fim do Apartheid na África do Sul e do treinamento de médicos no Timor Leste.
São exemplos de pessoas sem Deus que direcionaram seu tempo ao lado social, sendo conceituados como essencialmente materialistas. Vale ressaltar que a virtuosidade e a solidariedade de um ateu em nada estão ligadas à crença de um deus, mas suas ações são baseadas na moralidade, na dedicação aos outros e ao sentimento de ajudar quem necessita.
Analisar a conduta de uma pessoa baseando-se apenas em um fator é tornar o preconceito evidente. É limitar o ser humano a um conceito que não condiz com as suas ideias, ações e vontades. Independente dos fatores há homens e mulheres, brancos ou negros, crentes ou ateus, heterossexuais ou homossexuais, com condutas boas ou ruins. O que define as pessoas são suas condutas e não suas características.
DOUGLAS EDUARDO QUEIROZ é administrador em Londrina


