Foi na década de 60 que as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) começaram a surgir no Brasil, mas o grande incremento desse movimento se deu nos anos 70 e 80, portanto em pleno governo militar, o que marcou com grande ênfase política o que poderia ter sido mais uma expressão de fé popular originada na Igreja Católica. Desse modo, participantes das CEBs e padres se transformaram em militantes de esquerda, quando não em guerrilheiros, a exemplo, guardadas as devidas diferenças, do que ocorreu na revolução sandinista da Nicarágua.
Ao mesmo tempo, as CEBs foram se distanciando da hierarquia católica, ou melhor dizendo, da chamada Igreja tradicional, chegando alguns desses grupos a celebrar missas, batizados e casamentos, através de seus pregadores leigos ao invés de padres.
Com relação a estas características das CEBs, pronunciou-se em 1975 o papa Paulo VI, na exortação Evangelli Nuntiandi: ‘‘Com um espírito de crítica acerba em relação à Igreja, que elas estigmatizaram muito facilmente como ‘institucional’ e à qual elas se contrapõe como comunidades carismáticas, libertas das estruturas e inspirada somente no Evangelho (...) elas contestam radicalmente a Igreja. Sua inspiração principal bem depressa se torna ideológica e é raro que elas não sejam muito em breve a presa de uma opção política, de uma corrente e, depois, de um sistema, ou talvez mesmo de um partido, com todos os riscos que isso acarreta de se tornarem instrumentos dos mesmos’’.
Sobre essas palavras proféticas do pontífice, comentou o editorial do ‘‘O Estado de S. Paulo’’, de 15/07/97: ‘‘Os receios do papa não eram infundados. Basta pensar nos laços que unem inúmeras CEBs às propostas do Partido dos Trabalhadores. Na verdade, descaracterizadas das suas finalidades religiosas e evangelizadoras, as CEBs se transformaram num instrumento de propagação ideológica. E por crerem ‘num novo céu e numa nova terra’, como sublinha Frei Beto com estudada suavidade, ‘que as CEBs incentivam seus militantes à luta pela vida engajados nas mediações sociais capazes de assegurá-la: esferas políticas, como movimentos populares, sindicatos, cooperativas, mutirões e partidos’. Na verdade, este modo de conceber a evangelização está intimamente unido à concepção da fé como ato político-revolucionário-libertador. Para evangelizar o povo, pensam os profetas da nova religião, é preciso começar com a análise marxista da realidade’’.
Frei Beto esqueceu-se de mencionar o Movimento dos Sem-Terra (MST), que paulatinamente vai se transformando em braço armado do PT no campo. Tanto é, que Diolinda Alves de Souza, mulher de José Rainha Júnior, condenado em primeiro julgamento a 26 anos e meio pela acusação de duplo homicídio, ocorrido durante uma ocupação de terras em 1989, está participando do 9º Encontro Nacional de Comunidades Eclesiais de Base que se realiza em São Luís, no Maranhão. Diolinda pede, além de uma noção de apoio das CEBs, uma recomendação para que todos seus integrantes participem das manifestações a favor de Rainha, quando do seu segundo julgamento marcado para 16 de setembro.
O 9º Encontro Interclesial que reune cerca de 3.500 pessoas e 50 bispos, discute também como barrar a perda de fiéis para as novas igrejas evangélicas, entre elas a Igreja Universal do Reino de Deus, apresentando como ‘‘remédio’’ as CEBs que imitariam certos procedimentos daquelas. Além disso, entre os temas da reunião estão também as religiões afro-brasileiras, cultura de massas, questão indígena, movimentos populares e catolicismo popular. Deus não consta na pauta.
Sobre as religiões afro-brasileiras, até pouco tempo não toleradas pela Igreja, é significativo o texto-base do 9º Encontro, da autoria do frei holandês biblista Carlos Mesters. No texto, Jesus visita um terreiro de Candomblé, entra na fila para falar com a mãe-de-santo e depois ‘‘dança um tempão’’. No fim, comeu pipoca, cocada e batata assada com óleo de dendê, que o pessoal partilhava com ele’’.
Sem dúvida, estas palavras marcam um avanço considerável, se lembrarmos que no passado colonial as ordens religiosas, solícitas em defender os índios, foram as primeiras a aceitar e mesmo promover a escravidão africana, a fim de que os colonos, necessitados de escravos, lhes deixassem livres dos movimentos no setor indígena. Na verdade, os padres - muitos dos quais senhores de escravos - batizavam os africanos, lhes ensinavam rudimentos da religião católica e os obrigava a ir à missa, mantendo-os de pé no fundo da igreja. Assim, uma religião imposta se superpôs aos cultos proibidos de origem africana, sendo mecânica e mais de caráter social do que espiritual. Será que agora a igreja quer impor aos descendentes destes escravos uma espécie de religião de caráter político, na qual tanto Jesus quanto Marx se sentem à vontade num terreiro de Candomblé, imprimindo rumos revolucionários no local sagrado dos orixás? Afinal, diante do desempenho das CEBs, é inevitável indagar se são elas estruturas da Igreja ou movimentos políticos de esquerda, onde se agrega o charme de algum misticismo.

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