A arquitetura das cidades não deixa dúvidas: com medo da violência, a população se isola cada vez mais. Entre os ricos, o cenário é composto por cercas elétricas e muros cada vez mais altos. E entre a população mais humilde, qual seria a percepção e a reação à violência?

A professora Márcia Amaro, mestre em Saúde Coletiva, fez dessa dúvida tema para sua dissertação na UEL. No estudo intitulado ''O enfrentamento da violência a partir do olhar de lideranças comunitárias'', Márcia ouviu 25 pessoas-chave de bairros das regiões Oeste e Sul de Londrina. Nas comunidades mais articuladas, temas como corrupção e abusos domésticos já são encarados como violência. Onde a articulação inexiste, o pensamento é inverso.

Qual a percepção dos londrinenses em relação à violência?
A percepção das pessoas nas regiões avaliadas é muito mais forte quando a violência está atrelada à delinquência. Violência, para muitas pessoas, ainda é necessariamente o assassinato, o roubo, o furto, esse tipo de coisa. Na região mais mobilizada, as pessoas têm uma percepção maior, por exemplo, em relação à violência doméstica, à corrupção, à desigualdade, à exclusão social, enxergando também esses fatores como forma de violência. Com relação ao enfrentamento da violência propriamente dita, a região menos mobilizada credita mais esse enfrentamento da violência à polícia violenta, repressiva, à questão do governo ser o grande responsável por tudo. Embora as pessoas ouvidas sejam lideranças comunitárias e atuem em associações de moradores e mulheres, elas não se enxergam como parte do processo. Acham que existe um outro ser, uma outra instituição, fora da pessoa deles, que vai dar conta de tudo, através da repressão.

Quanto menor a mobilização popular, maiores são as queixas?
Já tínha essa desconfiança e com o estudo, reforcei. Acredito, também, ser difícil mudar essa realidade em curto prazo. Durante a pesquisa, li muitos artigos que traziam que o oposto da violência não é necessariamente a paz, que muitas vezes é um conceito utópico. As queixas vão ser recorrentes - e os problemas também - enquanto não houver cidadania. Na pesquisa, pude constatar que as pessoas que praticam o exercício da cidadania conseguem realmente encontrar estratégias melhores, mais participativas e eficazes contra a violência.

E o que a cidadania envolve nos bolsões e ambientes de pobreza?
A cidadania envolve desde um acesso à escola a se preocupar com o que se sucede na vizinhança, denunciar o que está errado, ver o que está errado, identificar tudo isso. Quando as pessoas identificam a violência só como sendo um assalto, assassinato e nem sequer mencionam violência doméstica ou corrupção, é preocupante.

No paralelo com a violência, qual o raio-x a ser feito de Londrina?
Londrina é um retrato do Brasil: em seu território há o melhor e o pior. Há a falta de mobilização e, onde há essa mobilização contra a violência, ela ainda é um pouco desarticulada. Mas é preciso também citar projetos comunitários feitos por cidadãos comuns, que não são políticos, e servem de modelo para o mundo. Diante desses aspectos, é possível afirmar que Londrina tem essa multiplicidade de formas, típica de um país pontuado por desigualdades como é o Brasil.

Na região londrinense que apresenta maior mobilização há maior desenvolvimento? O dinheiro faz a diferença?
Não necessariamente. Em termos de condições sócio-econômicas, vi pobreza em ambas as regiões. Na região com lideranças mais articuladas, percebe-se que essas lideranças conseguem fazer mais parcerias. Aliás, parceria é a palavra-chave: com empresas privadas, universidades. Então, podemos dizer que o dinheiro não faz a diferença. Ele faz a diferença a médio e longo prazo. Uma única pessoa pode dar o pontapé inicial para posteriormente capitalizar.

Para haver essa mudança, é necessário alterar o quê?
O grande problema na região menos mobilizada não era a falta de liderança, e sim a total ausência do diálogo. Um bairro que faz divisa com outro, onde os índices de violência são maiores, simplesmente se fecha em sua redoma. A típica frase ''no meu quintal não acontece isso, isso não é problema meu'', ganha coro. Assim como a pessoa não se põe como parte da solução, ela não se coloca como parte do problema. É uma inércia.

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