COMUNICAÇÃO - Violência não poder ser entretenimento
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
A violência está no centro do debate em todo o País. O número de casos e a gravidade dos delitos têm aumentado constantemente e assustado os brasileiros, independentemente de onde vivem, tanto em grandes centros urbanos quanto em pequenas cidades.
São homicídios, sequestros, latrocínios (roubo seguido de morte), estupros, pedofilia. Na última edição do índice Global da Paz (IGP) - levantamento anual dos indicadores de segurança e violência no mundo publicado em 2009 -, o Brasil ficou com o preocupante 85º lugar no ranking formado por 144 países. Perdeu para países como Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Peru e Chile. Levando em consideração os vizinhos sul-americanos, estamos mais bem colocados apenas do que a Colômbia e a Venezuela.
Em Londrina, por exemplo, apenas em abril situações de violência extrema chamaram a atenção da sociedade civil organizadas. Um exemplo foi a morte do universitário Wagner Cardoso Farias, 26 anos, assassinado por assaltantes que levaram o carro dele na porta de uma universidade patricular na Área Central. Outro caso que chocou a cidade e gerou protestos de moradores foi o assassinato do comerciante Luiz Carlos Gonçalves, 31, durante assalto à sorveteria da família dele, na Vila Yara (Zona Leste).
Com a onda de criminalidade que assola o País, os acontecimentos transformam-se rapidamente em matéria-prima para a mídia. Não é à toa que os meios de comunicação veiculam uma grande quantidade de notícias sobre crimes. Para a pesquisadora de tendências e mídia ativista Rosa Alegria, vice-presidente do núcleo de estudos do futuro da PUC-SP, a mídia deveria voltar suas preocupações para contribuir com a criação de uma cultura de paz.
''A mídia não pode conceber entretenimento a qualquer custo. É preciso elevar o valor do ser humano'', enfatiza Rosa, que é pesquisadora do projeto Imagem e Vozes de Esperança (IVE), cujo objetivo é fortalecer o papel da mídia como agente de benefício do mundo, e faz amanhã palestra sobre o tema em Londrina.
Como a mídia pode contribuir para uma cultura de paz?
Na sociedade moderna nós temos contato com a realidade por meio da mídia. Os meios de comunicação criam imagens, mensagens e uma cultura de valores. Mas, infelizmente, hoje a mídia não cria uma cultura de paz e sim de violência. A mídia enfoca aquilo que é negativo, que está degradado. Ela não tem uma abordagem positiva. A sociedade precisa de orientação e não deve ter contato apenas com o lado negativo dos fatos e com a banalização da violência. Atualmente você vê um sequestrador 20 horas ao vivo na televisão com a arma na cabeça da refém. E isso se torna o espetáculo do dia. Hoje a violência é diversão.
A função da imprensa é noticiar o fato quando e como ele acontece, não é? O jornalista norte-americano Walter Lipppman afirmou que ''a função da imprensa não é mostrar a verdade, mas jogar luz sobre os fatos.''
Não se trata de esconder a verdade, mas de retratá-la em sua amplitude. A realidade é exposta de uma forma distorcida. Colocar inúmeras vezes uma imagem de violência na TV cria uma realidade que não existe. O mundo não é só isso. Enquanto acontecem casos de violência há pessoas realizando atos nobres. Um instituto da Organização das Nações Unidas estudou o caso do Maníaco do Parque, mensurando a quantidade de horas que essa notícia foi divulgada durante um período. Eles fizeram um paralelo com outras notícias e programas e perceberam que havia de maneira assombrosa uma supremacia do caso do Maníaco do Parque. E o excesso de notícias veiculadas sobre o caso fez as pessoas pensarem que a cada esquina poderiam encontrar um estuprador.
É importante noticiar o que acontece de ruim, mas é preciso contextualizar e enriquecer a notícia com aspectos que fundamentem o que está por trás daquilo. A imprensa é vazia e banaliza o que é trágico. Uma sociedade exposta à banalização da violência começa a achar que é comum jogar crianças pela janela, espancar idosos.
O brasileiro é um povo violento?
Nós não temos natureza violenta. A nossa violência é social. Temos hoje o maior índice de homicídios entre jovens porque existe a questão da falta de emprego, das drogas e a banalização da violência. Eu atribuo à mídia muito dessa violência. O jovem fica exposto a essas imagens e para ele isso passa a ser normal. Nesse começo de século nós precisamos de criatividade, empreendedorismo e mobilização em torno de causas difíceis. E a mídia tem que fortalecer tudo isso.
Uma das propostas do IVE é gerar conteúdo construtivo e amplificar a esperança humana. Como isso pode ser feito na prática?
A proposta é que os profissionais da mídia reflitam sobre seu poder criativo direcionado para a regeneração da sociedade. Não falo apenas de jornalistas, mas também de publicitários, cineastas, dentre outros profissionais. Todos devem se perguntar: Qual é o impacto que o seu trabalho vai criar na sociedade? Ele vai gerar medo ou esperança?
Não é preciso diferenciar a imprensa informativa da apelativa como os programas de TV que exploram as tragédias?
A função da mídia é entreter, informar e educar. Essa é a minha visão. Entreter não significa ridicularizar ou minimizar o valor do ser humano. A mídia como um sistema construtivo de culturas não pode conceber entretenimento a qualquer custo. É preciso elevar o valor do ser humano.
Mas eu não estou generalizando. O que eu digo é que há uma tendência muito forte, principalmente na comunicação de massa. Mas os filmes também veiculam muita imagem gratuita de violência. Até hoje estou esperando um filme de ficção científica que crie um mundo que vai dar certo. Temos que redirecionar nossos holofotes.
Temos o maior índice de homicídios porque existe a questão da falta de emprego
Profissionais da mídia devem visar à regeneração da sociedade
Serviço
A palestra ''Trabalhando por uma mídia para paz'' será realizada amanhã, às 19h30, na Faculdade Pitágoras. Incrições podem ser feitas no local ou pelo www.londrinapazeando.org.br


