Compulsório, inadimplência e menos juros - Elcio Anibal de Lucca
Compulsório,
inadimplência
e menos juros
Elcio Anibal de Lucca
A nova redução do compulsório sobre depósitos à vista, de 65% para 55%, que foi adotada pelo Banco Central ao que parece, em comum acordo com a missão do FMI que visitou o País ainda é muito tímida diante da necessidade de baixar os juros no Brasil em níveis adequados à necessidade de estimular os investimentos, o consumo e um processo mais dinâmico de crescimento econômico. Além disso, uma radical queda da inadimplência constitui-se em fator fundamental à queda dos juros. Explica-se: a inadimplência de pessoas físicas e jurídicas é uma das principais causas dos juros altos, cujas taxas embutem o valor presumido do risco inerente aos créditos não resgatados.
O problema da inadimplência, ao contrário do que muitos pensam, não está apenas atrelado à baixa liquidez de numerosas empresas, às concordatas, à demissão de assalariados, à cultura do brasileiro de não dimensionar corretamente o orçamento familiar e à má-fé. Muito além disso, há uma questão técnica crucial: até hoje, a análise de risco no momento da concessão de empréstimos ou financiamentos vinha sendo baseada apenas na negativação. Ou seja, pessoas físicas ou jurídicas que nunca foram inadimplentes estão potencialmente habilitadas a receber o crédito ou financiamento. Aquelas cujos cadastros indicam histórico ou mesmo um episódio isolado de inadimplência estão sumariamente condenadas a um sonoro não.
Tal processo binário, respaldado incide em duplo problema. De um lado, desconsidera a possibilidade de o mais fervoroso dos adimplentes deixar de sê-lo; por outro, descarta a hipótese, plausível e real, de que inadimplentes eventuais possam tornar-se exemplares e pontuais pagadores de seus débitos. Essa distorção analítica tem duas consequências simultâneas e igualmente graves.
Em primeiro lugar, não reduz em níveis adequados os riscos no momento da concessão do crédito. Em segundo lugar, impede que centenas de empresas e milhares de cidadãos, respectivamente, deixem de investir e comprar, sendo excluídos do direito ao crédito por uma ficha cadastral nem sempre condizente com sua realidade presente e futura. Projetar na economia de escala o volume de crédito que deixa de ser concedido por conta desse modelo oferece uma idéia clara dos prejuízos causados a um país que precisa crescer, estimular a produção e o consumo e gerar empregos. Trata-se, portanto, de um fator de desestímulo da atividade econômica.
Felizmente, já existe tecnologia de primeiro mundo plenamente desenvolvida no Brasil para corrigir o problema. Trata-se de metodologia denominada credit rating, quando aplicada para empresas e credit scoring, para pessoas físicas. São modelos de avaliação de risco de crédito que calculam, com acentuado grau de precisão, a probabilidade de inadimplência futura, utilizando dados cadastrais, informações restritivas e hábitos de pagamento. Este instrumento de gestão que não pode prescindir, obviamente, dos agentes do mercado geradores de informação permite avaliação consistente, baseada no comportamento dos tomadores de empréstimos no mercado, ampliando o foco de visão de risco das instituições, que contavam, até agora, apenas com informações particulares de suas bases de dados para desenvolver seus modelos de análise de crédito.
Outro aspecto fundamental desse modelo é que, embora sofisticado, seu custo é muito baixo. Aliás, nem poderia ser diferente, pois não se produziriam resultados práticos em termos da redução dos juros se o risco de inadimplência fosse substituído pelo alto preço de uma análise eficiente de crédito. Seria desvestir um santo para vestir outro...
Ainda são poucas as instituições financeiras e empresas que utilizam o credit scoring no Brasil. Porém, seus resultados são tão positivos, inclusive em ganhos de competitividade, que permitem estimar níveis de inadimplência próximos de zero quando a metodologia estiver sendo utilizada em larga escala. Trata-se, também, de fazer justiça aos adimplentes, isentando-os de pagar pelo risco representado por terceiros, e àqueles que, por questões circunstanciais, tenham sua ficha cadastral arranhada. No combate contra a inadimplência, a economia nacional deverá vencer por nocaute.
- ELCIO ANIBAL DE LUCCA é presidente da Centralização de Serviços dos Bancos (Serasa)





