A presidente Dilma Rousseff deve editar amanhã um decreto para contingenciar R$ 10 bilhões do Orçamento da União. Um corte tão elevado significará o bloqueio das despesas discricionárias (não obrigatórias) da máquina pública. E como não poderá empenhar novas despesas em dezembro, Dilma até cancelou uma viagem que faria mês que vem ao Japão e Vietnã. Assim como uma boa parte dos brasileiros, a presidente gastou mais do que o seu orçamento permitia.

A inflação e o desemprego estão trazendo à tona um problema que não parecia tão grave em épocas de equilíbrio econômico: o consumo inconsequente e desenfreado está levando famílias inteiras à bancarrota. O superendividamento é o tema da reportagem de hoje da FOLHA. Os paranaenses estão devendo mais e não estão conseguindo pagar seus débitos. Nem mesmo o Projeto de Tratamento de Superendividamento do Consumidor do Tribunal de Justiça do Paraná está conseguindo ajudar. Constatou-se que as audiências de conciliação entre devedor e credor não evoluem porque o endividado não tem espaço em seu orçamento para honrar um compromisso.

Há muitos motivos que levam as famílias ao superendividamento, como o desemprego - que compromete a capacidade de pagamento do trabalhador - e doenças graves. Mas o consumismo é apontado por coordenadores do "Devedores Anônimos" como a principal causa da falência financeira dos cidadãos que buscam ajuda nesse grupo. Que não se confunda consumo com consumismo. Consumir é bom, é necessário e diz respeito a satisfazer as necessidades do homem com moradia, alimentação, vestuário, transporte, lazer, educação e informação. O problema é quando adultos, adolescentes e crianças acreditam que o ato de comprar é sinônimo de felicidade. O consumo vira consumismo.

No século 21, a frase icônica do iluminista Renê Descartes, "penso, logo existo", deu lugar à "compro, logo existo". Hoje em dia, o verbo "ter" é mais importante que "saber". É fácil comprovar isso quando se percebe que, em momentos de crise, como agora, as pessoas abrem mão de uma educação melhor para os filhos, deixam de lado a leitura de um jornal de qualidade para comprar mais um par de tênis igual aos outros dois que possuem no armário.

Não adianta procurar apenas um culpado pela situação de inadimplência dos brasileiros. Pode estar no desemprego, nas tragédias pessoais, nas propagandas de TV ou na necessidade de se espelhar em modelos baseados no supérfluo. Infelizmente, o brasileiro está carente de bons exemplos, principalmente vindo da classe política. Enquanto líderes estrangeiros aparecem na imprensa usando o transporte público, abrindo a casa para refugiados ou servindo sopa para a comunidade pobre, por aqui a situação é outra. A imagem que o homem público brasileiro passa é a de que por dinheiro, vale tudo. Se alguém duvidar, basta seguir as notícias diárias das operações Lava Jato e Zelotes.

mockup