A declaração de arrependimento de alguém que cometeu um assassinato, e o cumprimento da pena na prisão por conta disso, podem ter pouco mérito se o autor do crime não houver se conscientizado do valor da vida. Ele pode estar arrependido, mas só alcançará o perdão quando entender que interrompeu a trajetória terrena de alguém e que o dom da vida é muito valioso. Poderá considerar-se quitado com a sociedade, mas só estará limpo desse delito quando tiver o lampejo de compreender a preciosa importância de alguém estar vivo e encontrar-se aqui.
Não redime o predador que derrubou uma floresta se ele for, por isso, apenas condenado a replantar árvore por árvore. Ele só se livrará dessa carga quando tomar consciência do valor da árvore. É com a natureza, perante a própria consciência, que ele terá de prestar contas e não com a lei. Se alguém maltrata um animal, e como penalidade tenha que cuidar de outro durante certo tempo, não se cura da falta apenas com isto, porque será preciso que entenda o tamanho da dor a que submeteu esse ser vivo e sentir em si mesmo a sensação dessa dor.
Quem manteve alguém sob dominação e o fez sofrer por isso, não terá eliminado sua culpa se não sentir-se no lugar dessa pessoa e não vivenciar a idêntica situação da vítima. Um governante que se aposse de dinheiro público não obterá a graça da redenção só porque foi preso, execrado publicamente e, por imposição dos tribunais, devolveu tudo o que roubou. Será preciso, em comunhão consigo mesmo, ele se conscientizar de que não deve apropriar-se do que não lhe pertence.
Alguém que desgaste irresponsavelmente o seu corpo, pelo consumo de drogas, fumo e bebida, ou pelo excesso de trabalho ou a prática de esporte perigoso que ofereça risco à vida, só eliminará esse débito consigo mesmo se vier, em dado momento, a entender o que significa a sua armadura carnal para garantir o exercício da vida e abrigar o espírito. Deixar os vícios e práticas apenas para restabelecer-se, ou porque já lhe falte a força física para certos divertimentos radicais, o manterá da mesma forma em dívida, até que desperte para a responsabilidade que deve ter com seu corpo, e que o tem por dádiva divina.
Não basta alguém arrepender-se de seus denominados pecados se isto ocorre por temor de castigos terrenos ou divinos, porque tal não eliminará as nódoas, a não ser que ele sinta no âmago da alma o peso do mal que causou a outros, a si próprio ou ao meio em que vive. Se alguém destroi uma coisa maldosamente, ciente do mal que causou, nunca estará livre desse ônus, mesmo que pague tudo a quem prejudicou, a não ser que compreenda a validade das coisas que destruiu.
WALMOR MACARINI é jornalista na FOLHA DE LONDRINA

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