Comprar ações com FGTS. O que é isso?
Ricardo Prochet
Uma pesquisa nacional inédita, realizada via Internet, demonstrou que 58% dos pesquisados ignoram o valor do seu saldo no FGTS, e 42% não sabem como sacar o dinheiro do fundo. Elaborada pela Consultoria Superútil no período de junho a setembro, a pesquisa – respondida por 2.914 pessoas – teve como objetivo averiguar o nível de conhecimento do trabalhador brasileiro a respeito de um direito seu, o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, e também alertar para que as fraudes que tiram bilhões de reais dos trabalhadores não continuem acontecendo.
Os dados são alarmantes. Do total de pesquisados, 79,6% têm um nível de conhecimento ruim ou regular sobre o FGTS, sendo que 60% não têm ou não sabem o que é o cartão do trabalhador da Caixa Econômica Federal, usado para acompanhar o saldo.
A possibilidade da compra de ações da Petrobras utilizando o FGTS é mais uma idéia mal explicada que é empurrada goela abaixo do povo brasileiro, desta feita com amplo apoio da mídia em todos os níveis, sem que se preocupe sequer em informar corretamente quais as reais intenções, possíveis consequências e muito menos os fundamentos e os riscos desse tipo de investimento.
Já há alguns dias ouvimos e ainda pelos próximos ouviremos uma enxurrada de informações desencontradas vindas de analistas de todas as categorias e que como todo povo brasileiro, ainda não digeriu completamente a recém-lançada idéia mas precisa opinar na tentativa de ajudar os que são ainda menos favorecidos de informações e com o intuito de permitir um juízo de valor correto da novidade apresentada a nação.
O FGTS tem duas finalidades básicas, uma de cunho trabalhista que se propõe à constituição de indenização proporcional ao tempo de serviço a ser paga ao trabalhador quando da sua demissão imotivada ou aposentadoria e a outra social, já que o fundo constituído é destinado a financiar a construção de casas populares, saneamento básico e infra-estrutura. Os recursos do fundo são administrados pelo Conselho Curador do FGTS, órgão tripartite composto por representantes dos trabalhadores, dos empregados e do governo federal.
A idéia do governo é criar um outro fundo – desta feita de investimento em ações da nossa querida Petrobras, que já deixou vazar óleo duas vezes esse ano – administrado pelo próprio governo, com taxa de administração guardada em glorioso segredo e risco integralmente assumido pelo trabalhador brasileiro, que pouco pode interferir nos processos macroeconômicos de um país onde existem leis que ‘‘não pegam para ninguém’’ ou que ainda pior, ‘‘só pegam para alguns’’.
Um fundamento básico de análise financeira diz que para determinar o preço adequado das ações de uma empresa, o analista de títulos deve prever o dividendo e os lucros que podem ser esperados daquela empresa. Este é o núcleo da análise fundamentalista, isto é, a análise de determinantes de valor, tais como as perspectivas de lucros. Essencialmente, o sucesso comercial de uma empresa determina os dividendos que esta pode pagar aos acionistas e o preço que ela atingirá na bolsa de valores.
No caso de um fundo criado e administrado pelo próprio governo e cujo investimento se dá em empreendimento controlado pelo mesmo, há de se supor a existência de um severo risco político recomendando maior cautela quanto ao investimento. O risco político de uma operação financeira envolve a possibilidade de autoridades governamentais interferirem no desenvolvimento pontual ou na viabilidade econômica dos planos futuros. Por exemplo, podem impor pesados tributos ou restrições legais onerosas uma vez iniciadas as operações da empresa.
A questão, que precisa ser melhor estudada passa pela desigualdade do potencial de análise da perspectiva macroeconômica existente entre as diversas classes de trabalhadores. Esse fosso acabará por fazer com que uns poucos privilegiados possam obter rendimentos melhores que outros, simplesmente por estarem melhor informados sobre a correta hora de entrar ou sair do mercado de capitais. Isso por si só, torna possível a diferença de remuneração dos investidores no novo fundo, fugindo completamente ao que se esperava do Fundo de Garantia quando da sua criação e agravando ainda mais as distâncias sociais existentes no Brasil.
Vamos acordar imediatamente para a realidade, quando concluiremos que lamentavelmente o Brasil ainda possui alarmantes carências habitacionais e que expressiva parcela da população precisa adquirir sua própria moradia, tendo ao seu alcance financiamentos e prazos compatíveis com sua renda familiar e jamais ser atraído para a armadilha de investimentos sobre os quais ele desconhece os mecanismos básicos de funcionamento mas que são, pelo o que aqui vai de alto risco para a sua já pequena poupança.
- RICARDO PROCHET é administrador de empresas, professor universitário, consultor e conselheiro de empresas em Londrina
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