COMPORTAMENTO NO TRÂNSITO - 'A gente repete o que recebe, principalmente em casa'
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terça-feira, 20 de outubro de 2009
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Estresse, raiva, palavrões, discussão. Parece a narrativa de uma briga qualquer. Mas é o que se vê diariamente no trânsito de qualquer cidade. Em algumas, agressões físicas também já estão fazendo parte da rotina. Quem se habilita a dirigir tem que ter também muita paciência, educação e aprender a respirar fundo para conseguir chegar em casa sem se irritar.
O professor doutor João Carlos Alchieri é especialista em Comportamento Humano no Trânsito e veio a Londrina participar de um curso no Instituto Sapiens. Nesta entrevista ele comenta que a saída para um trânsito mais humano é a educação: ''As campanhas de educação não devem ficar restritas às crianças e restritas somente a transformá-las num condutor padrão. Nós temos que ensinar as crianças a andar de bicicleta, a andar na calçada, nós temos que ensinar as crianças a ensinar os pais das crianças.''
As pessoas têm, no trânsito, um comportamento igual ao que têm no dia a dia ou expressam algo diferente?
Você adota comportamentos que tenham a ver com aquele ambiente. Mas a base é a mesma. Se você é uma pessoa cautelosa, preocupada com os outros, você vai, em geral, reagir assim às situações quando você sair de carro.
Mas o fato de estar dentro de um carro, de não ser facilmente visto pelos outros, não pode fazer com que a pessoa torne-se um pouco mais agressiva?
As pessoas em geral vão se comportar como se elas tivessem a facilidade dessa expressão de comportamento. Então, se você tem vidros fumê, isso vai te dar uma ideia de proteção, de segurança. E por trás desse escudo, você se sente mais livre para poder fazer algumas ações.
Há o comentário de que as mulheres são menos gentis no trânsito que os homens. É verdade?
Eu já observei isso, mas vejo muito mais como uma forma reativa. Como não recebem, elas sabem que consequentemente vai ser mais difícil e aí não fazem porque não vão ter essa recíproca. Só que a educação se estende rápido. Se você dá passagem, está estimulando o outro a ser assim. A gente repete o que recebe, principalmente em casa.
O pedestre reclama muito que o motorista não o respeita. Mas como ele se comporta ao volante?
É a situação reativa que nós falamos. Todo mundo é pedestre, mais cedo ou mais tarde vai estar como motorista e aí você se comporta como tal. Então se você sente que o processo é agressivo, você se preserva, mas depois assume o papel.
Londrina está implantando uma campanha chamada ''Pé na Faixa''. Pode dar resultado? O que pode ser melhorado na campanha?
É a educação. E isso é constantemente falar. Mas não só falar o errado. Você pode estar facilitando esse processo de educação. Não estamos formando o cidadão para agora, estamos formando o formador de cidadão no futuro.
O pedestre é colocado como vítima por ser mais frágil do que os veículos. Mas ele também tem várias atitudes erradas, não é?
Sim, ele é mal-educado no trânsito também. Por exemplo, você não deveria chegar muito perto do meio-fio da calçada. As calçadas não são seguras, não têm uma proteção para o carro. Se abalroar uma calçada, o carro sempre sobe. Deveria ter uma proteção maior para isso. Lógico que tem fatores ergonômicos. Se a calçada é muito alta, o pedestre não vai descer ali naquele ponto. Mas ele poderia descer num ponto que são os cruzamentos.
E o conflito entre carros e motos tem solução?
Sim, é o mesmo conflito pedestres e veículos. O motoqueiro é um condutor. Então ele tem que obedecer, segundo o Código de Trânsito, as mesmas regras. Ele não pode fazer aqueles cruzamentos, não pode assumir atitudes arriscadas, mas por até ter uma parcela e uma idade significativa de usuários mais jovens, acaba tendo esse tipo de comportamento. Da mesma maneira que os pedestres, nós temos como fazer que as pessoas possam respeitar o veículo, a guia, o fluxo.
Também deveria haver mais fiscalização e efetiva. Não adianta nada você multar e não sentir mudança no comportamento. Depois de duas, três multas ele voltaria para fazer o processo (de habilitação). Ele tem que ser acompanhado por mais tempo. A gente só dá os pontinhos na carteira e cobra um valor. Fica muito distante da responsabilidade. Ele paga a pena e se sente livre.


