COMPORTAMENTO DE MÁFIA - Povo gosta de autoritarismo?
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quarta-feira, 27 de junho de 2007
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Um breve olhar sobre os escândalos em Brasília remete à pergunta: saberia o brasileiro votar de forma consciente? Em busca dessas e de outras respostas, a FOLHA ouviu a socióloga Maria Lucia Barbosa. Sem poupar críticas, Maria Lucia, que é autora de cinco livros, entre eles ''O Voto da Pobreza e a Pobreza do Voto'', acredita que somente as futuras gerações poderão tirar do poder os ''neocoronéis'' que apresentam ''comportamento de máfia'', como define.
Somos reféns do marketing político?
De maneira geral, em todas as sociedades, as pessoas votam mais no marqueteiro do que no político. A imagem construída, que apresenta os melhores traços, como uma espécie de quadro, é aquela que conquista o eleitor. É a lógica do ''mais estilo, menos substância''. No Brasil, não fugimos à regra: há cada vez mais informação e se sabe menos. Hoje, temos um povo que responde à propaganda, que continua emocional - o eleitor de resultados, uma vez satisfeitos seus anseios, o resto não importa. A única coisa que derruba o Brasil é a economia. Como o PT deu continuidade ao Plano Real, tudo permanece como está. O mais humilde é agradecido e o rico não tem ideologia. O pensamento está centrado no bolso.
Diante disso, o Brasil é democraticamente imaturo?
Completamente. A democracia no Brasil sempre foi um tremendo mal entendido. Gostamos de autoritarismo, SENTIMOS A NECESSIDADE DE UM PAI eSTADO, QUE NOS MANTENHA ETERNAMENTE CRIANçAS. Há um excesso de poder do Executivo, o Legislativo nunca esteve tão corrompido e o Judiciário idem. Também me preocupo muito com a liberdade de imprensa, que esse governo tem tentado cercear de todas as maneiras. Parece até que, de uma forma mal adaptada, seguimos os caminhos de Hugo Chávez. A Globo que se cuide!
Aposta em uma mudança de mentalidade do eleitor brasileiro?
De jeito nenhum. Somos o país do ''dá-se um jeito'', do ''viva e deixe viver'', temos essas marcas hereditárias, históricas e coloniais profundas. A plasticidade moral que nós, brasileiros, temos, nos faz olhar com indiferença para situações que deixariam outros povos horrorizados. Seria preciso um trabalho focado às próximas gerações.
Alguma sugestão?
O Brasil é um gigante com uma cabecinha lá em cima do pescoço. Temos uma elite formada por bons empresários e intelectuais, mas essa minoria não consegue se impor. Falta desenvolver essa cabeça a partir da educação, que está em um nível péssimo. Enquanto tentarmos recriar o conhecimento, com métodos educacionais que não avaliam nada, teremos um círculo vicioso: professores ruins geram alunos ruins, que se tornarão professores piores de alunos piores. Alicerçando o país na educação, com estímulo à leitura, teremos futuras gerações imbuídas da consciência cívica. Aí, sim, o cidadão poderá eleger bons representantes e inserir um ponto final a esse Estado corrupto e incompetente.
Em entrevista à FOLHA, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) afirmou que os políticos estão com medo do povo...
Buarque, a exemplo dos demais parlamentares, vive naquilo que chamaria de Ilha da Fantasia, que é Brasília. A visão de Brasil desses parlamentares se resume à capital federal, onde ecoam as fofocas e comentários. País afora, fato é que não há essa movimentação. Talvez aqui no Sul, um pouco em São Paulo também. Em linhas gerais, os escândalos são tantos que anestesiam a povo, promovem o esquecimento. Quem lembra do Zuleido (Zuleido Veras, proprietário da Gautama)? Ou do Valdomiro Diniz? O caso Renan Calheiros vai pelo mesmo caminho: a justificativa é tão absurda que, se as pessoas acreditarem naquilo, nós teríamos um país de débeis mentais. O povo se esquece dos escândalos assim como não se lembra em quem votou nas últimas eleições.


