A angústia e dor escondidas levam crianças e adolescentes à prática da automutilação e até à tentativa de suicídio, precocemente. O problema atinge todas as classes sociais e é estudado há mais de 20 anos pelo conselheiro familiar, professor Virgílio Tomasetti Júnior. Pedagogo, ele acompanha pessoas entre 12 e 30 anos em Londrina e afirma que existe a necessidade de "identificação" para abertura dos jovens que revelam seus anseios quando recebem atenção. "Precisa ter interesse pela dor deles com amor e afeto, o que provoca essa identificação com a pessoa que sofre. Além disso, eles precisam descobrir que existe alguém para ouvi-los", comentou o professor, autor do livro "Educando Nossos Filhos: o que fazer em cada fase do desenvolvimento". Confira a entrevista:


A automutilação é um fenômeno que ocorre entre crianças e adolescentes por qual motivo? Qual a faixa etária atingida?

Primeiro, a automutilação não é exatamente um problema novo. É um problema antigo. Só que agora em um mundo de 7 bilhões de pessoas, o mundo da internet, o mundo em que tudo se compacta, temos até gente ensinando aos jovens como se cortar, o que é um verdadeiro absurdo. A internet é um grande instrumento, mas também um grande lixo. A grande parte dos jovens fica pescando nesse lixo. Mais meninas que meninos se cortam. Por quê? Um psiquiatra chamado Mira Y. López afirma que as mulheres têm medo da dor moral e não têm medo da dor física. A menina quando está tão desesperada transfere a dor moral para a dor física. Enquanto ela está concentrada na dor física, se esquece do problema real, que é a dor moral, ou seja, a angústia. E quando acontece de meninos se cortarem é gravíssimo, pois é muito raro. Isso mostra que o garoto está em total desamparo, pelo menos na ótica dele. Ele se sente ameaçado pela sociedade, que é considerada hostil e ele não tem como recorrer ao pai e à mãe. Ele está em dúvida. E pode ser uma dúvida até de ordem sexual ou social. Mas é uma dúvida atroz para ele. O que para o adulto é muito simples para ele é algo atroz. Naquele filme "Sociedade dos Poetas Mortos", nós vemos o suicídio de um jovem por um problema muito bobo, pois ele não sabia dizer "não" para o pai.

Existem sinais que professores podem identificar para ajudar os alunos com esse problema?

Em um universo de cada 3 mil alunos, só chegam à direção do colégio cinco ou seis casos de estudantes com essas características. Outra coisa que é preciso deixar bem claro é que esse problema atinge todas as classes sociais. Não é um privilégio da elite burguesa ou dos filhinhos de papai. Seria ingênuo qualquer diretor de colégio falar que isso não acontece na escola dele. Atualmente, ocorre em pequenos números, mas os casos são desesperadores.

Como os pais podem ajudar as crianças?

Infelizmente, os pais demoram para perceber que o filho atravessa esse problema. É mais fácil a escola perceber tudo isso porque eles estão se escondendo das pessoas que estão causando aquela dor. Algumas famílias são carentes em oferecer equilíbrio e afetividade. Dependendo da fragilidade emocional do jovem, temos o desespero instalado em sua vida. Nem todos os pais percebem o que está acontecendo em casa. Então, a menina se sente desamparada, pois a mãe teve um bebê e ela não está suportando tudo isso, se sentindo sozinha no mundo. Ou quando a menina pensa que pode causar uma grande decepção ao pai ou à mãe, que são os verdadeiros ídolos da sua vida, ela acaba entrando em desespero. Cabe à escola perceber o que há de novo. São pessoas em que a higiene é prejudicada. Quando isso ocorre, elas se afastam da sociedade, dos colegas e não fazem questão de ter contato social. Nesta hora, a escola precisa ir ao encontro a esse jovem e trazê-lo para um contato mais íntimo.

A automutilação é um problema recente?

Primeiro, havia muita vergonha social de dizer que o problema existe. Segundo, hoje nós temos um mundo de 7 bilhões de pessoas e com muitas redes sociais com conteúdos que ensinam os jovens a se cortarem, o que é um absurdo. São coisas inimagináveis no mundo de 20 anos atrás. Nós acumulamos muito mais conhecimento nos últimos 50 anos do que nos 2 mil anteriores. Veja bem, é muito conhecimento técnico. É muita informação e pouca formação.

Quais as áreas do corpo mutiladas pelos jovens?

Normalmente, as meninas cortam os pulsos ou os braços. O filme "A Secretária" mostra a história de uma mulher com esse problema. Conhecendo a filha, a mãe não deixava nada cortante próximo dela.

O que sente a pessoa que se corta voluntariamente?

Ela sente um estado de entorpecência. É como a pessoa que se medica em excesso e entra em um estado de não ser. Então, existe a dor, mas também o prazer da dor. Primeiro ela sente a dor e depois o estado de não existência. Por isso, muita gente se vicia neste chamada automutilação, na tentativa de fugir da angústia sofrida. É tão forte a angústia, a pessoa se sente tão desamparada em um mundo tão hostil que acaba tentando esse recurso para se concentrar na dor física e fugir da dor moral.

Por que o senhor começou a estudar esse problema?

A partir da internet passaram a ensinar crianças e adolescentes a automutilação, observei que realmente existiam muito mais pessoas que eu imaginava praticando isso e nas palestras que realizo voltadas para os pais, alguns relataram casos dos filhos. Como alguns pediram o tratamento dos filhos, eu passei a me interessar mais e a aprofundar os estudos sobre o tema. Eu tive contato com aproximadamente 15 pessoas que se cortavam e no diálogo e acompanhamento, descobri que o que leva à automutilação é uma total insegurança, sem confiar nos pais. É sentir o mundo em volta tão hostil, que quando você sente a dor física considera melhor que a dor da angústia. Então, eu quis saber o que havia em comum entre eles e descobri que o desamparo e a impressão de que ninguém conhecia a dor deles eram presentes em todos os casos. Isso é errôneo e pode ser tratado. O mundo é equilíbrio e afetividade. Alguns casais e até família bem estruturadas têm dificuldades em expressar carinho e atenção e o que acontece é que a criança ou adolescente acaba se sentido sozinho no mundo.

Qual a avaliação que senhor faz do uso de medicamentos para crianças, atualmente, devido ao comportamento?

Muitas crianças agitadas hoje, hipercinéticos, são tratados como portadores de síndromes que não existem. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), há um movimento de psiquiatras alertando colegas sobre o uso da ritalina e outros medicamentos mais fortes para síndromes mal explicadas. Nós não podemos ser apressados, nem médicos, nem educadores e nem pais, em dar siglas às pessoas. Tem ocorrido no mundo inteiro, não só no Brasil. Depois da Guerra do Vietnã, quando os soldados voltaram com síndromes, criaram-se siglas para que o governo americano desse ajuda financeira às pessoas com transtornos. Mas, isso existe em menores escalas. Então, às vezes a criança tem alguma coisa muito leve. Por exemplo, o menino é agitado demais porque os pais são agitados ou porque nenhum deles tem autoridade. A falta de autoridade dos pais é que faz o menino ficar assim. Pelo menos metade das crianças são erroneamente diagnosticadas porque há pressa dos pais e dos médicos em colocar o paciente nesse ou naquele diagnóstico.

Por que algumas crianças são tão agitadas?

Nesse ponto da agitação, vejo uma mesma relação com a automutilação. É desarranjo familiar. Por exemplo, alguns pais me procuram e falam que os filhos são muito ansiosos, mas na verdade a ansiedade do pai e da mãe passa para as crianças. Existe uma frase que diz "criança resiste a tudo; menos à ansiedade dos pais". Ela sofre muito mais se pai e mãe forem ansiosos. A ansiedade dos pais causa essas síndromes nas crianças. Geralmente, os pais dessas crianças são muito ansiosos e alguns pensam que não são, mas acabam passando isso para os filhos. Quanto à medicação é isso, muita gente está sendo diagnosticada precocemente. Se muitos pais se propuserem a ir ao psicólogo não haveria necessidade de tanta medicação. Tem que ser humilde e pedir ajuda e admitir que muitas vezes o problema está na família e não na criança ou no adolescente.

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