A pesquisa CNT/Sensus, divulgada na última segunda-feira, trouxe: 98,2% dos brasileiros têm conhecimento do caso Isabella Nardoni. As notícias em torno da morte da menina, arremessada do 6º andar do Edifício London, na Zona Norte de São Paulo, em 29 de março, atraem, cada vez mais, a atenção da audiência de todas as idades. Para o psicanalista Ailton Bastos, existe explicação para a curiosidade em torno do mórbido: a identificação das pessoas com os fatos.

Em entrevista à FOLHA, Bastos ressalta um maior cuidado por parte dos pais em relação à exposição de crianças e adolescentes às tragédias estampadas na mídia. Confira a íntegra.

Há uma explicação para a curiosidade das pessoas pelo mórbido?
Com certeza. A explicação é em função muito mais da identificação que as pessoas têm com os fatos. Há questões inconscientes que nos levam a nos identificarmos com qualquer situação da vida. Com a violência, não é diferente. O caso Isabela, especificamente, alcança tal repercussão por trazer algumas características peculiares: em geral, esperamos, socialmente, que a violência aconteça nas camadas de baixa renda. As famílias da classe média, de certa forma estão protegidas desse nível de exposição. Quando uma família de classe média é atingida por um fato tão grave, há a identificação, no típico ''isso poderia ter acontecido comigo''.

E como se dá essa identificação?
Alguém se identifica como pai, como mãe, vizinho, amigo... Em todos os níveis de identificações há o desconforto porque a pessoa precisa digerir o que se sucedeu. E mais: o caso Isabela, especificamente, traz as piores impressões às pessoas. Quando alguém morre após uma discussão no trânsito ou uma briga envolvendo dívidas ou cônjuges, o desconforto não é tão grande.

O senhor tem um estudo com crianças, também, não?
Conversei com crianças desde os 6 anos de idade a adolescentes até 15. Foi muito interessante que essas crianças e jovens falavam de Isabella Nardoni, de seu pai e de sua madrasta como pessoas conhecidas. Quando eu perguntava sobre o assunto, mesmo sem citar o nome de Isabella, essas crianças e jovens já tinham a resposta na ponta da língua, relatando tudo o que os jornais estamparam, nos dias anteriores. Eles se referiam a Anna Carolina Jatobá e a Alexandre Nardoni não como pessoas distantes, mas sim como se fossem próximos.

E há uma preocupação para evitar essa proximidade?
Penso que as coisas se dão em muitos níveis. Há uma preocupação de educadores, de parcelas da mídia e das autoridades com o nível de exposição das crianças à violência. Contudo, embora haja preocupação, ninguém tem conseguido estabelecer os limites: os pais sabem que tal programa é violento, mas não conseguem dizer ''não'' aos filhos. Esse é um problema mundial.

Novelas têm abusado das cenas de violência. A ficção também interfere?
Nem tanto. Quando assistimos a um filme de terror ou à morte de determinado personagem, assassinado, no horário nobre, o impacto se dá durante a extensão ou duração da atração. Após a exibição, não há a continuidade no interesse. Há uma pesquisa que trata de eventos traumáticos, nos Estados Unidos: aquelas que passaram por uma experiência difícil, como um incêndio, sobreviveram e relataram suas experiências, reagiram melhor, uma vez que extravasaram aquela angústia. Já as pessoas que guardaram para si, vivendo o estresse pós-traumático, tiveram consequências mais a longo prazo.

Qual o saldo que um episódio como o caso Isabella Nardoni traz à população?
A alimentação de dados e a busca por mais e mais traz níveis diferentes de estresse pós-traumático e afetação, que podem gerar um transtorno mental. O primeiro nível compreende as pessoas afetadas diretamente, como a família Nardoni e aqueles mais próximos. Há também as testemunhas. Como o caso repercutiu mundo afora, podemos dizer que todos somos testemunhas oculares. Nesse sentido, segundo recentes pesquisas, as pessoas diretamente ligadas ao caso têm uma possibilidade de 60% de sofrerem algum tipo de problema psicológico ou mental. As testemunhas, até 20%, e os demais, podem até ser anestesiados: vêem o que aconteceu, sabem do ocorrido, mas se anestesiam para não se afetarem demais. Em síntese, estamos todos afetados.

A censura seria a saída, para evitar essa curiosidade pelo mórbido, em se tratando de crianças e adolescentes?
Quando falamos em censura, podemos ser mal-interpretados, agora, quando falamos da proteção dos pais em relação aos filhos, é óbvio: não devemos pensar que os filhos têm de saber de tudo, até porque a criança precisa da repetição para entender determinadas coisas. Penso que um certo nível de informação é necessário, mas, à medida que se torna prejudicial, soa o alerta. A diferença entre o remédio e o veneno é a dose.

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