O avanço da tecnologia está proporcionando uma nova forma de relação interpessoal. O contato por meio da internet é cada vez mais comum. Situações corriqueiras, como conhecer outras pessoas e bater papo, hoje são feitas por meio do mouse e do teclado. Até um conhecimento mais íntimo pode ser substituído pelo mundo virtual.

O sexo por meio da internet não é mais novidade. Com o uso de uma câmera e um microfone, o ato ''sexual'' pode ser praticado de forma virtual. A substituição da relação propriamente dita pelo contato ''à distância'', no entanto, pode ser uma fonte de prazer real?

Quem responde a esta e outras peguntas sobre essa nova modalidade de contato humano é o clínico geral e terapeuta sexual João Borzino de São Paulo. Nesta entrevista, ele aborda os prós e os contras desse tipo de sexo.

O que motiva alguém a praticar sexo virtual?
Na maioria das vezes, o sexo virtual é praticado por pessoas que têm dificuldade com a realidade, com a exposição de suas fantasias ou de concretizar seus desejos. A procura pelo sexo virtual tem também ligação com a autoestima. As pessoas têm muito medo de ser rejeitadas e malvistas sexualmente, seja porque não se acham atraentes ou porque têm medo de um mau desempenho. O anonimato proporcionado pela internet facilita então para que esses indivíduos criem um personagem, que age como padrão vigente. Com isso, passam a ter uma sensação de total proteção emocional e física.

Essa prática pode ser considerada uma doença?
Em primeiro lugar, é preciso diferenciar os tipos de praticantes do sexo virtual. Existem aqueles que o fazem esporadicamente para obter determinado prazer, tal qual uma masturbação, por exemplo. E há aqueles que são compulsivos e só conseguem se satisfazer ou se expressar sexualmente no ambiente virtual. Este segundo grupo possui um desvio de comportamento da sexualidade caracterizado como parafilia. São pessoas cujo prazer não se concentra na cópula em si, mas em outra atividade. Ou seja, transferem o objeto da sexualidade (o corpo do parceiro ou parceira) para o ambiente virtual. Geralmente, essas pessoas têm outros sintomas. Entre os principais estão a falta de concentração no trabalho e os problemas de convívio familiar, pois dedicam horas e horas à internet. Nestes casos, trata-se de um vício, tão devastador quanto o alcoolismo.

Quais são os tipos de sexo virtual?
Não há tipos de sexo virtual e sim tipos de finalidades para o sexo virtual. O mais preocupante é o caso dos parafílicos, pessoas que substituem completamente o sexo carnal pelo virtual. Existem também aqueles que estão insatisfeitos com as relações reais e o praticam eventualmente como forma de substituição. Nessa categoria, há perfis como os dos maridos ou mulheres entediados, os tímidos que não têm muito sucesso e aqueles que têm medo de sua performance ao vivo, entre outros. E ainda há os casais que praticam o sexo virtual apenas como um adendo da relação. Uma forma de apimentar o relacionamento ou minimizar períodos em que a distância os separa fisicamente.

Quais as consequências dessa prática?
Em geral, o sexo virtual não causa nenhum problema físico ou sexual. Ninguém vai ter disfunção erétil, frigidez, ejaculação precoce porque o fez. Estes problemas, aliás, costumam ser a origem da prática e não sua consequência. O que pode ocorrer é uma reação em cadeia. Uma pessoa com tendências a fugir da realidade ou com baixa autoestima pode ser levada para uma utilização compulsiva do sexo virtual, o que não é saudável. Outra implicação é o indivíduo sofrer com uma não aceitação social sobre seu uso do sexo virtual. A prática pode ser entendida como traição pelo parceiro, acarretando em brigas e separações.

Qual recomendação o senhor daria para quem pratica o sexo virtual?
Suas fantasias podem ser usadas a favor ou contra você. É preciso que as pessoas entendam que o virtual pode ser benéfico, a partir do momento em que não seja usado em substituição ao sexo real. É importante prestar atenção que o sexo virtual pode ser agradável, mas nunca será um substituto do sexo real. Deve, sim, servir mais como um acessório de sex

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