Comportamento - A vida entre muros
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de junho de 2015
Ana Paula Nascimento<br>Reportagem Local 
Londrina Ao criticar de forma pontual a tendência cada vez mais comum dos brasileiros procurarem morar em condomínios fechados devido à uma suposta demanda por maior segurança, o psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, Christian Dunker, se tornou recentemente alvo de uma série de críticas em redes sociais, lideradas principalmente pelo economista e colunista Rodrigo Constantino, que escreve em blog da Revista Veja.
A polêmica começou após recente aparição de Dunker no programa "Café Filosófico", da TV Cultura, quando afirmou, entre outras citações, que "a graça de viver no condomínio é a ideia de quem está por fora quer entrar. É o gozo adicional da inveja". A partir daí, acabou por trazer à tona por meio dos debates virtuais uma série de elementos que servem para ampliar a reflexão sobre os limites do consumismo, dos desejos, assim como a privatização do espaço público e as tensões que abarcam a nossa formação cultural enquanto brasileiros e o sonho permanente por uma vida melhor em uma sociedade marcada pelas desigualdades sociais.
O assunto também é tema do seu último livro - "Mal-estar, sofrimento e sintoma uma psicopatologia do Brasil entre muros" (Boitempo Editorial)-, em que explora as diferenças na tríade mal-estar, sofrimento e sintoma para muito além da visão funcionalista descritiva das patologias mentais. Como foi possível inventar uma forma de vida comum sem a criação de uma verdadeira comunidade é o grande questionamento que acaba por permear essa discussão pertinente. Confira abaixo entrevista exclusiva que Dunker concedeu à FOLHA.
ENTREVISTA
FOLHA DE LONDRINA - Como o senhor avalia a tendência atual, no Brasil, das pessoas procurarem morar em condomínios fechados, até mesmo nas cidades do interior? Seria uma busca desenfreada por uma suposta "sensação de segurança" e/ou uma comprovação da incompetência do Estado em garantir segurança pública para todos?
CHRISTIAN DUNKER - As duas coisas; desejo de segurança e desatenção do Estado concorrem com outros motivos. O condomínio é uma experiência de exclusividade, por isso ele é definido por muros. Ele cria, imaginariamente, uma identidade interior, formada por "pessoas como eu" e exclui o inimigo perigoso. No livro, descrevo momentos da lógica do condomínio: a idealização de uma vida plenamente realizada, a construção de uma redoma artificial, os muros, que dizem no fundo que "a salvação é para poucos", a emergência do síndico e o excesso de regulamentos, pequenos exercícios de poder, que indicam que a reaparição do mal-estar ali onde ele havia sido proscrito e, finalmente, a aparição de sintomas mais ou menos típicos deste modo de vida: o narcisismo das pequenas diferenças, o tédio e a apatia, a síndrome de comparação e desempenho, o excesso de álcool e drogas. Ressalto que a vida em forma de condomínio não é exclusiva daqueles que moram em residenciais fechados com guaritas e cancelas, mas uma espécie de lógica de relação, que encontramos de forma assemelhada na favela, na prisão e no shopping center. São espaços nos quais vivemos com a sensação de que ali o Estado e sua forma institucional de administrar a relação entre o espaço público e o espaço privado não entra. São outras leis, é outra a geografia, são outras as expectativas normativas. Esta é, então, ao mesmo tempo, uma forma de vida arcaica e moderna, ou pós-moderna Se antes tínhamos uma alternativa básica entre mudar o mundo ou mudar a si mesmo, hoje surgiu uma outra alternativa: mudar a paisagem, mudar o ambiente, mimetizar o espaço de tal forma a que ele funcione como um modulador se sensações. Se antes vivíamos o sonho moderno de uma vida planejada, mas disciplinada, e dirigida, cujo exemplo é Brasília ou Belo Horizonte, hoje nós procuramos uma rede de experiências abertas e flexíveis. Paradoxalmente este controle só pode ser obtido com uma brutal redução do tamanho do mundo, do tamanho do mundo que importa. Por isso a tendência a construir uma forma de vida "avançada" mas que ao mesmo tempo se mostra um apequenamento do mundo, e virtualmente, de nós mesmos.
A sua recente colocação, no programa Café Filosófico, em que disse que "...a graça de viver no condomínio é a ideia de quem está por fora quer entrar. É o gozo adicional da inveja" gerou discussões acaloradas na rede social. O senhor poderia explicar melhor o contexto da sua fala, em que aborda duas linhas de afeto que concorrem para a experiência simbólica do condomínio no Brasil? Pensar "psicanaliticamente" sobre nossos problemas sociais é pouco usual na mídia e, devido a isso, abre margem para conflitos de interpretação?
Este sentimento de exclusividade que vem junto com o condomínio e que faz ostensivamente parte de sua retórica de vendas, apoia-se em dois afetos fundamentais: o medo e a inveja. O medo é responsável pela ideia de que no fundo o condomínio não é um luxo, mas uma necessidade; ele não é uma exclusão dos outros, mas uma defesa contra uma sociedade perigosa. Mas este argumento, que ninguém duvidará, esconde uma segunda retórica infiltrada, nem sempre muito confessável, e que acompanha todo consumo conspícuo (feito para ser mostrado), ou seja, o sentimento íntimo de que os outros estão a nos invejar, afinal eles ainda estão no mundo lá fora, perigoso e violento. Este gozo, clinicamente trivial, atravessa genericamente todos os nosso atos de consumo. Consumimos para realizar necessidades, mas também porque o consumo, e seus marcadores, se tornam signos de nossa posição social. A maneira como consumimos diz, direta ou indiretamente, por quem e como queremos ser reconhecidos. O sujeito que gasta um valor adicional em um tênis de marca, um carro importado ou um local de residência dotado de "grife", como os condomínios, está interessado em ganho de qualidade, mas também no valor social que este ganho de qualidade (que muitas vezes é discutível) traz consigo. Isso é o que a psicanálise chama de gozo. Uma de suas vertentes mais comuns é o gozo da inveja, no qual eu me satisfaço por ter, e me satisfaço ainda mais porque o outro não tem, não teve ou não terá. A reação aguda de muitos críticos a esta ideia trivial é um exemplo de como as relações entre ricos e pobres ainda são muito mal pensadas no Brasil. Muitos ricos não conseguem perceber que seu estilo de consumo, seu exibicionismo, tantas vezes cafona, pode ser percebido como uma mensagem agressiva, despertando um tipo de inveja baseada na humilhação, que cedo ou tarde evoluirá para a hostilidade e violência. Desta forma, aquilo que em tese seria uma proteção e uma fuga da violência, como o condomínio, acaba por produzir um efeito reverso que alimentar o ressentimento social e com ele o ódio. Temos então o ódio dos que ficam de fora e a inveja dos que ficam dentro como dois determinantes afetivos fundamentais de nossa tendência ao condomínio. Que esta ideia desperte a ira de críticos e comentaristas é uma mostra de como existem muitos "condomínios mentais", inclusive no jornalismo, incapazes de pensar sua própria posição e que com sua retórica da guerra e do perigo estão contribuindo para aumentar a violência e a segregação.
No seu livro "Mal-estar, sofrimento e sintoma uma psicopatologia do Brasil entre muros", o senhor fala sobre a privatização do espaço público e a transformação da própria vida em formas de condomínio, cheia de regras, dentro de um sonho brasileiro de consumo que já está custando muito caro. Dentro desse contexto, quais seriam as fobias sociais mais comuns e como lidar com elas (e superá-las)?
Formou-se, sem nenhum vergonha, particularmente em nossas classes médias, a ideia de que uma boa educação deve ser baseada no amor e que a melhor maneira de mostrar amor aos filhos neste mundo tão "perigoso" é protegê-los. Em nome desta espécie de premissa moral indiscutível, criamos escolas que segregam diferenças, empresas que homogenizam suas culturas, formas de vida cada vez menos diversificadas do ponto de vista cultural, étnico, religioso e até mesmo linguístico. Isso tem certos precedentes políticos, o neoliberalismo dos anos 1970, mas principalmente uma espécie de demissão que o Estado praticou em relação ao espaço público que ele não queria, não conseguia ou não podia administrar. Nos acostumamos assim, que coisas como educação, saúde, assistência social, comunicação e cultura, sem falar no extremo da moradia com os condomínios, poderiam ser "empreitadas". Temos, então, síndicos por toda parte: no governo, nas áreas restritas da economia, nas concessões de rádio e televisão, no futebol. O síndico é alguém que rege um regulamento segundo princípios de gestão, ou seja, ele não precisa entender das atividades fins, como se diz, basta que ele saiba gerir o negócio, seja ele o repasse de verbas públicas, seja ele o circuito de regulamentos e normas superespecializadas. Ora este sonho de consumo está fincando caro e se transformando em pesadelo porque chegamos a um nível de guerra entre condomínios, um momento em que a coisa pública se tornou sentida tão fortemente como posse de um grupo que quando isso não se verifica na prática temos a emergência deste ódio, desta divisão, desta oposição surda que tomou conta do país. A fobia é uma afecção ligada ao medo. Geralmente ela se forma por substituição de um medo anterior que vai sendo gradualmente esquecido quanto ao seu contexto formativo. Algo mais ou menos similar ocorreu com a condominização do Brasil. Erguemos muralhas para nos proteger do medo e depois nos tornamos reféns do medo que os muros nos causam (aos nos lembrar do que existe do outro lado, mas cuja face real esquecemos). A fobia pode denunciar, assim, uma debilidade para ler, interpretar e conviver com a diferença, tornando-a imediatamente perigosa. Surgem, assim, crianças que sofrem com o mutismo seletivo (não falam com estranhos), adolescentes que se reúnem em gangues, adultos homofóbicos, religiosos cujo afeto fundamental é o ódio.
O conceito de "justiçamento", da "justiça feita com as próprias mãos", anda em voga no Brasil também... De certa forma, isso contribui para reforçar a descrença nos meios legais de justiça? Seria como uma "válvula de escape", onde esse tipo de atitude acaba sendo mais fácil do que realmente se estabelecer uma organização social e política da sociedade civil para que os meios legais de justiça prevaleçam?
Sim, creio que o filme "Tropa de Elite" (José Padilha, 2000) foi um grande marco nesta direção. Não porque ele tenha causado isso, mas porque ele acontece em um momento no qual o Brasil está passando da justiça pessoal e vingativa, daqueles que estão excluídos dos processos de cidadania ligados ao direito e à justiça como bem simbólico, para uma espécie de agenciamento do Estado. A descrença nos meios legais não decorre só do fato de que nossa polícia seja a que mais mata no Hemisfério Sul, mas na interpretação de que o estado está "terceirizando" a justiça nas mãos de alguém. O justiçamento surge em um momento de expansão das milícias, mas do grande negócio da "segurança", desde as câmeras até as vigilâncias particulares nas grandes cidades, até as milícias nos morros. Sabe-se que o melhor conceito em matéria de segurança está baseado na segurança comunitária, seja ela associada diretamente com a polícia ou não. Mas para termos segurança comunitária é preciso haver comunidade, e o condomínio é uma espécie de doença da comunidade, uma comunidade de falsos iguais que se auto segregam contra os outros, que sentem como ameaçadores. A justiça com as próprias mãos é em indício de que até mesmo o livre empreendedorismo tem limite.
O senhor é a favor da redução da maioridade penal (recentemente tivemos o caso do assassinato do médico ciclista Jaime Gold que polemizou ainda mais o tema)? Ela pode ser considerada um mecanismo efetivo para reduzir a violência no Brasil? Na sua opinião, quais seriam os caminhos mais indicados para a construção de uma sociedade mais justa e menos violenta no Brasil?
A redução da maioridade penal não está baseada em qualquer conceito de autonomia ou de reformulação do que entendemos por sujeito. Intuitivamente, temos que ler que um sujeito responsável é alguém que sabe usar uma arma e sabe que com ela se consegue dinheiro. Isso é autonomia? Usar a redução da maioridade e penal para reduzir os menos de 5% dos crimes graves praticados por menores não é só ineficaz, mas parte do discurso do condomínio. É uma forma de dizer: vamos aumentar a altura do muro, assim eles vão ficar com medo de pular. Coloquemos eles neste condomínio do mal chamado prisão. Tenho defendido que a palavra é o melhor redutor de violência. Se não permitirmos que a palavra circule, que a polícia fale e seja ouvida também, se o nosso universo de relações tiver mais palavras e menos discursos de ódio entre pobres e ricos, entre pessoas de bem e bandidos, muito, mas não tudo de nossa criminalidade pode ser reduzida. Vá a uma delegacia e consulte o delegado sobre o número de crimes "fúteis": bebeu e bateu no vizinho, ficou com ciúmes e espancou a mulher, teve um entrevero na sinuca e matou o parceiro, ex-maridos raivosos, adolescentes às voltas com o consumo de entorpecentes. Não é que sejam crimes menores, é que sua determinação acusa uma gravíssima falta de recorrência, confiança ou disponibilidade para a palavra. Acredito que a justiça baseada na reparação e na mediação precisa ser amplamente implantada no Brasil, mas enquanto isso não acontece perdemos tempo com debates inúteis e totalmente descabidos como a redução da maioridade penal. Só pode ser levada a sério uma proposta como esta em função da ascensão de um discurso conservador, desqualificado e incapaz de apresentar verdadeiras razões para suas propostas. A coisa é tão ridícula que conseguiu até juntar o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB).


