Rubem Azevedo Lima
Em muitos países a história, por vezes, é marcada por estranhos instantes de transbordamentos de irracionalidade e de colapsos de lucidez no trato de seus problemas. Nessas ocasiões, as chamadas elites, em geral, e os homens públicos, em particular, como que esquecem princípios e criam situações inadministráveis de desavenças, intolerância e agravos à lei.
O cidadão comum, indefeso, dá mostras de sentir-se mais inseguro quanto aos seus direitos no Brasil. Passa a temer tanto os perigos imaginários quanto os reais. E se angustia, desespera, desconfia de tudo e de todos, tornando-se agressivo, por autodefesa, em face das incertezas do futuro sem perspectivas, que talvez só lhe reserve o espectro de uma identidade individual, social e nacional perdida.
Esses momentos caóticos e alucinatórios geram violências e costumam preceder grandes e súbitas tempestades. Num livro já citado aqui, em que reuniu algumas de suas análises, Barbara Tuchman registrou a frequência com que políticos e governantes, durante as crises, não vêem ou não dão importância aos sinais que podem transformá-las em catástrofes.
Cita ela o caso de Roosevelt, que não acreditou nos relatórios sobre os expurgos de Stalin. Mas são muitos os erros de avaliação política, no tempo e no espaço. Ali, foi a rainha Maria Antonieta, que, ante a escassez de trigo e a falta de pão, às vésperas da Revolução Francesa, aconselhou, ironicamente, os súditos a comerem brioches.
Acolá, foi Hitler, que pensou ter criado um regime para durar mil anos, na Alemanha. Aqui, foi Getúlio Vargas, ao final do Estado Novo, que nomeou o irmão Benjamin para chefiar a Polícia, pensando talvez em continuar no poder.
Submetido à pressão do agravamento das injustiças sociais e desacertos econômicos, o Brasil vive hoje momento extremamente confuso, resultante não de um erro isolado, mas da soma de muitos erros.
Os bancos não pagam Imposto de Renda. No caso, aliás, os assalariados pagam mais do que as grandes corporações. Empresas que devem R$ 100 bilhões à União estão impunes e continuam a sangrar o Tesouro.
Ministros brigam com ministros - o presidente Fernando Henrique chama a atenção, quer acabar com as brigas. Outros gozam férias pagas pelos contribuintes. Grampos telefônicos desnudam fatos espantosos na arte de governar. O presidente jura não privatizar a Petrobras, mas leiloa suas áreas petrolíferas a grupos estrangeiros. E nomeia, para dirigir a Polícia Federal, um delegado acusado de participar de atos de tortura - que depois caiu pela pressão das denúncias.
Os dirigentes das duas Casas do Congresso ofendem-se com violência. Assinaturas falsas garantem ali verbas públicas a empresas privadas de um congressista; outro, passível de investigação, ameaça os servidores legislativos.
Uma CPI mostra que juízes corruptos podem enriquecer à sombra do erário - e isso leva a propostas severas de reforma do Judiciário que, por sua vez, leva um confronto entre o presidente do Senado e o presidente do Supremo Tribunal Federal.
A Justiça invoca a lei e proíbe a quebra do sigilo telefônico, bancário e fiscal nas investigações parlamentares. Que pensam disso os brasileiros? Afinal, essa lei permitiu investigar e cassar os anões do Orçamento e Collor, mudando os rumos da história política do Brasil, nos anos 90. Sem ela, FHC talvez não fosse presidente.
Mas fica uma impressão ruim: nossas leis são malfeitas ou mal interpretadas e, assim, também geram irracionalidades e colapsos de lucidez no País.
- RUBEM AZEVEDO LIMA é jornalista em Brasília

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