Como FHC pode perder - J. Roberto Whitaker Penteado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de julho de 1998
J. Roberto Whitaker Penteado 
Agora que vai começar, para valer, a campanha eleitoral - ocupando espaços nobres na TV e no noticiário dos jornais - tenho uma revelação importantíssima a fazer: eu sei a fórmula para que Fernando Henrique perca as eleições para presidente do Brasil. Desgraçadamente, para seus adversários, ela não pode beneficiar qualquer um deles, porque se trata do seguinte: a única maneira de FHC perder é se for candidato único.
Imagine, caro leitor, a seguinte situação: o atual presidente apresenta-se ao eleitorado como candidato de uma coligação geral de todos os partidos do País - o que, no Brasil, apesar da aparente dificuldade e importância, não faz muita diferença para a eleição do presidente, como ficou comprovado com a vitória de Fernando Collor, na primeira vez em que se votou depois que acabou a última ditadura.
Nas maquinetas de voto, ou em cédulas - onde elas não existirem - propõe-se ao eleitor, como nos questionários de pesquisa de mercado, uma simples questão: Você deseja que o Sr. Fernando Henrique Cardoso continue a ser presidente? E as respostas fechadas em Sim ( ), Não ( ) e Talvez ( ) ou Não Sei ( ) para assinalar com um x.
Alguém duvida que o Sim vai perder de goleada do Não e do Talvez e do Não Sei somados? Creio até que - considerando toda a extensão da manifestação democrática de opinião representada por tal consulta - deveríamos ter também uma opção para Nenhuma das anteriores, como nos exames vestibulares. Eu, por exemplo, pensando bem, cravaria firme o Não ou Nenhuma das anteriores, porque, nos quatro anos que FHC já teve, não conseguiu acabar com A Voz do Brasil....
O fato é que nosso atual presidente e seus assessores políticos encontraram, na seleção dos adversários de FHC, uma forma infalível para que ele seja reeleito. Afinal de contas, todos sabem que brasileiro não gosta de votar em perdedor e consulta sempre as pesquisas, no jornal ou na televisão, antes de votar. Se descobre que seu preferido não tem chance, prefere anular o voto ou votar em branco a correr o risco de ter sido parte da minoria que escolheu um azarão e perdeu...
Bem posso imaginar o pessoal, lá no Planalto - em especial os baianos, o senador Antonio Carlos, Nizan Guanaes, velhas raposas do conhecimento político e da compreensão da alma brasileira - conversando com o presidente e fazendo suas conjecturas: item 1, na eleição seguinte, brasileiro vota sempre contra o governo anterior; item 2, o que fazer para o voto contrário a Fernando Henrique ser tão absurdo que as pessoas não possam ter outra escolha a não ser votar nele, de novo?
Genial, gente! Nos primeiros momentos de tomada de decisões eleitoreiras, a escolha de Lula, novamente, como candidato a segundo (o que os americanos charmosamente chamam de runner-up) já era uma forma de assegurar que FHC seria reeleito, pois já ficou por demais evidente que o simpático líder trabalhador conta com um terço dos votos do País - nem um a mais, nem a menos.
Pareá-lo, contudo, com Leonel Brizola - miraculosamente exumado, não se sabe bem como nem porquê - foi, repito, um lampejo da mais pura genialidade. Bastava ter feito a soma das rejeições dos dois políticos de oposição para ver que essa dupla perderia na certa... A única coisa que confesso não ter a mínima idéia é de como os articuladores políticos de FHC conseguiram convencer Lula e Brizola a juntar-se numa só chapa!
Daí a minha conclusão, revelada no início desse artigo, e que - tenho certeza - depois dos argumentos alinhavados parecerá bem mais óbvia: de que a única maneira de FHC perder a próxima eleição seria concorrendo como candidato único, desde que - bem entendido - os eleitores pudessem votar a favor ou contra. Como isso não vai, mesmo, acontecer, acho que poderíamos suspender tudo, desde já, dizer ao presidente que ele pode continuar por mais um mandato e economizar, no processo, para o País, uma grana preta.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing no Rio de Janeiro


