Como falar com o mundo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de abril de 1997
João José Werzbitzki 
O tema é apaixonante e toma as manchetes de todos os jornais, diariamente: a globalização. O que é? Como ocorre? O que provoca? Como agir (ou reagir)? Que fazer diante dela? (ou com ela)?... As questões são muitas, ainda mais quando vemos importantes empresas próximas, como o Bamerindus, a Refripar, a Plásticos do Paraná, a Eletrofrio e outras, sendo compradas por empresas internacionais e mudando completamente o seu comportamento no mercado.
Longe de tentar esgotar o tema, que, creio, é inesgotável e muito polêmico, o que se percebe é que há muita preocupação com o futuro, com o fato de que muitas empresas nacionais importantes estão sendo engolidas pelas internacionais, sem chance de reação. Aliás, nem sei se há reação possível.
O fato é o que, na verdade, a imensa maioria das empresas brasileiras não está preparada para enfrentar a competição internacional. Quantas marcas brasileiras são conhecidas no mundo todo? Talvez só a Pelé...Com raras exceções, como Brahma na América Latina, as, marcas brasileiras são tímidas e se restringem ao mercado brasileiro (quando não são regionais dentro do nosso país).
A fome por desenvolvimento e crescimento das empresas nacionais, infelizmente, parece limitada. Limitada aos recursos disponíveis, dirão muitos. Mas limitada também à falta de informações e conhecimento dos empresários, de todos os ramos (inclusive agências de propaganda).
Temos uma mania boba, (não é neobobismo, é antigo) de achar que sabemos tudo, quando mal conhecemos o que nos cerca, ou o que poderia fazer parte do nosso dia-a-dia. Do uso do computador à busca de informações de mercado, ao conhecimento das aspirações e necessidades dos clientes, à comunicação profissional, à preocupação com a imagem da marca, com as ações institucionais e até comerciais possíveis. Falta técnica, tecnologia, dinheiro e coragem de ousar mas falta principalmente conhecimento.
Conhecimento é poder (e conhecimento é muito mais do que só ter as informações - é saber o que fazer com elas).
Vamos continuar sendo engolidos, por uma razão muito simples: não conhecemos sequer a nós mesmos, não reconhecemos os nossos potenciais, nem buscamos fontes de fortalecimento básicas como a do conhecimento (hoje tão disponível, no mundo todo).
Continuaremos a ser engolidos por algumas gerações, por falta de preparo técnico e humano, porque as nossas universidades e o nosso ensino básico são falhos. Mas, principalmente, porque nós mesmos nos acomodamos diante de uma realidade que era visível antes de se tornar real: a globalização, que parece ficção de George Orwell mas não é. É realidade: os mais preparados crescem, os menos sucumbem.
E esta parece que será a realidade do mundo. Neste futuro quechega cada vez mais depressa.
Quem não estiver capacitado e muito bem preparado não terá futuro promissor - como pessoa, profissional, empresa ou produto.
Por isso, quando vejo discutirem o que fazer para colocar a sua empresa em diálogo com o mundo, para enfrentar os desafios da comunicação, sinto que talvez muitos estejam perdendo tempo com isso - porque simplesmente não fazem nem sua lição de casa, ainda.
Isto é: como pensar em ser uma empresa, marca ou produto global, se não se tem nem o reconhecimento e o respeito da vizinhança (ou até dentro da própria empresa)? De que adianta ouvir palestras, discursos e debates, se na verdade não se faz o que os americanos chamam de Homework (o dever de casa, nos meus bons tempos de colégio Santa Maria).
É dever de casa mesmo. Obrigação, sem a qual não se passa de ano.
Dia desses um empresário disse, numa roda de amigos: Temos a mania nacional de esperar que o governo resolva tudo. Pois a verdade é que o Brasil só terá solução quando um cumprir com o seu dever. Verdade que lembra John Kennedy: Não perguntem o que o seu país pode fazer por vocês. Perguntem o que vocês podem fazer pelo seu país. E façam!
A globalização começa em casa, na sua empresa, com seus funcionários e clientes, conhecendo suas necessidades, interesses e aspirações. Atendendo aos requerimentos do mercado. Buscando aprimorar-se permanentemente. Informando-se e buscando todo o conhecimento que possa ampliar a sua competitividade - primeiro no seu bairro, depois na sua cidade, depois numa região maior e mais tarde ainda no mundo todo.
Falar com o mundo não é difícil. Basta saber o que o mundo quer ouvir.
E basta começar fazendo isso em casa. Já.


