Na Ásia, cinco pessoas já morreram de ataque cardíaco, após dias e noites jogando, à frente de um computador. Na Finlândia, o estudante Pekka-Eric Auvinen, que abriu fogo contra uma escola, postava seus vídeos no YouTube e tinha a internet como seu maior refúgio. E os pais, o que podem fazer diante desse novo vício, sinal da evolução dos tempos? Em entrevista à FOLHA, o psiquiatra gaúcho Daniel Spritzer compara, com base em estudos, a dependência eletrônica às drogas. E sugere uma posição mais efetiva, por parte dos pais, essenciais para o diagnóstico que caracteriza o vício.

Quais os sintomas para um pai verificar se seu filho é ''viciado'' em internet e em jogos online?
O contato com as novas tecnologias tem tanto aspectos positivos como negativos, mas se for muito intenso e por isso ocupar o espaço de outras atividades importantes, tais como estudos, trabalho, relacionamentos, atividade física, sono, certamente passa a ser mais prejudicial que benéfico. O limite nesses casos é o prejuízo em alguma dessas áreas.

O problema é mundial...
Mundial. A maioria absoluta dos estudos disponíveis na literatura científica até o momento foi realizada em países desenvolvidos e com grande avanço tecnológico. No Brasil, contudo, ainda não existem estudos que determinem qual a porcentagem da população que sofre com esse problema.

Qual a faixa etária mais viciada em internet, entre os jovens?
De modo geral, toda a adolescência converte-se em um período de maior risco, e isso se deve às características normais dessa fase do desenvolvimento.

Quais características?
A necessidade de criar uma identidade, a importância do grupo de amigos, o desenvolvimento de relacionamentos amorosos, a impulsividade...

O senhor diz que, em suas palestras, que o organismo de um viciado em jogos reage de maneira parecida ao de um viciado em drogas. Por quê?
Alguns estudos demonstraram que os jogos eletrônicos podem ocasionar no cérebro alterações muito semelhantes às encontradas com uso de drogas (aumento da liberação de dopamina no núcleo accumbens), e estas alterações seriam responsáveis pela sensação de prazer gerada por este comportamento e pelo intenso desejo de continuar jogando.

Como os pais devem agir diante de jogos, MSN, Orkut, Second Life e afins?
Se os pais se mostrarem interessados e perguntarem aos filhos como e para quê eles estão usando o computador e a internet, acabarão desenvolvendo uma relação mais próxima com eles e lhes conhecendo um pouco mais. Porém, quando o uso está ficando excessivo, isto é, ocasionando problemas na vida do jovem, é importante que os pais possam ajudar esse jovem a sair da frente do computador e retomar os aspectos da sua vida que estavam ficando de lado.

Alguma dica?
Se aproximar dos filhos e procurar saber mais sobre a relação deles com o computador e a internet, colocar um limite de tempo caso o filho esteja deixando de fazer outras coisas para ficar na internet e muitas vezes até determinar que o computador só será usado depois de o filho ter estudado e feito as lições de casa.

E a sociedade em que vivemos, está mais para vítima ou vilã desse processo?
Vilã. A sociedade em que vivemos de certo modo facilita este uso excessivo na medida em que se hipervaloriza o prazer, o individualismo e o presente.

Apregoa restrições a lan houses e casas voltadas a jogos?
Em cidades como Belo Horizonte e Porto Alegre, existem medidas que tentam evitar que crianças e adolescentes fiquem por um tempo excessivo em lan houses. As medidas existem, mas, na prática, são muito difíceis de ser implementadas.

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