É bastante comum nas pessoas que estão passando pelo processo do endividamento não perceber o momento certo de estancar este procedimento. Todo desequilíbrio orçamentário, obviamente, teve seu começo. Sem perceber e com um crédito imenso à sua disposição, o pensamento seguido de atitude vem automaticamente. A pessoa vai entrando no limite do cheque especial, ou retira dinheiro com o cartão de crédito, ou ainda faz um empréstimo no Banco, tipo CDC, etc,etc.
No mês seguinte, percebe que, além dos compromissos anteriores, tem mais aqueles gerados dentro do mês, logo, suas necessidades de recorrer ao crédito são maiores ainda.
Pronto, este seria um dos momentos certos de parar de se endividar. A postura certa deveria ser verificar na ponta do lápis exatamente qual é o montante que está acima de sua capacidade de pagamento e, após identificar esse valor, eleger um, dois - ou quantos dos seus débitos forem necessários - e renegociá-los.
Você vai ter de abrir mão de alguns privilégios neste momento. Por exemplo, se tem dois ou mais cartões de crédito, fique somente com um. Deixe os outros de lado, parando de pagar o mínimo. Assim, em dois ou três meses a própria administradora vai lhe propor um parcelamento do saldo devedor.
São dois ou três meses de fôlego e a prestação para quitar esse saldo devedor sempre pode ser menor que o pagamento do tal valor mínimo. O fato é que cada caso é um caso e tem de ser avaliado dentro de sua realidade.
O que não pode é você ficar complementando as suas necessidades de pagamento todo mês, criando dívidas para pagar dívidas. Enquanto você tem seu crédito positivo, ou seja, sem restrições, vá utilizando de forma ordenada para quitar débitos gerados anteriormente e, consequentemente, manter seu nome limpo na praça.
Acontece que na prática este procedimento é fatal. Ao longo dos meses, o volume de seu endividamento crescerá assustadoramente. Quando você consegue mil reais para pagar em 12 prestações, já vai ficar devendo mais de R$ 2 mil. Isto em função dos juros exagerados que são praticados por todo o sistema financeiro.
Faça o seu orçamento com total prioridade para a sua subsistência. Sua fonte de renda é a única e principal receita que deve e pode ser utilizada para quitar os seus compromissos, não empréstimos. Claro que nestas situações, você vai constatar que está devendo mais que recebe. Paciência, muitas coisas vão ter de ficar para depois.
É ilusão pensar que você vai passar imune por este processo, dependendo do estágio. Muita gente vive fazendo ginástica com o crédito, transformando seus problemas, que hoje são ruins, para pior ainda no futuro.
É só verificar há dois ou três meses atrás, certamente era menos ruim. Se não parar, vai piorando cada vez mais. Seu pensamento: ‘‘Ah, mas meu nome vai para o SPC e a SERASA’’. Se não parar agora, mais tarde, vai do mesmo jeito porque você não vai mais ter onde recorrer.
Conheço pessoas que ganham R$ 2 mil por mês, e quando me procuraram estavam devendo quase R$ 30 mil na praça. Imaginem a ginástica de uma situação dessas, que infelizmente demonstra a realidade de uma grande parte da população.
Portanto, nunca é demais repetir: ‘‘Dívidas não se pagam contraindo mais dívidas’’. Paga-se com a sua fonte de renda, mesmo que tenha de ser a curto, médio ou longo prazo, de acordo com a dimensão dos seus problemas.
EMANUEL GONÇALVES, é juiz arbitral, instrutor de palestras e escritor em Salvador, Bahia

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