Há, no Brasil, cerca de 25 milhões de famílias sem acesso a um domicílio bancário, constituindo um universo de 100 milhões de pessoas. São os sem-conta, se podemos criar uma nova categoria social. Trata-se de uma situação perversa que em parte se explica pela concentração de renda em determinadas camadas e pelo desenvolvimento diferenciado das cidades brasileiras.
O acesso a serviços bancários é, nos dias de hoje, uma questão de cidadania, pois é por meio de transferências associadas à conta corrente que o cidadão recebe o benefício de um programa público, paga as suas contas, faz a sua poupança e obtém o crédito, vital para a criação de oportunidades de renda e na melhoria da qualidade de vida. Ter uma conta corrente também é importante do ponto de vista da auto-estima do cidadão, em especial o de menor renda.
O acesso das famílias ao domicílio bancário espelha a concentração de renda. Quatro em cada cinco famílias com renda mensal superior a dez salários mínimos têm conta corrente. Já entre 21 milhões de famílias com renda inferior a dez salários mínimos o índice de acesso a serviços bancários é de apenas 20%. Além disso, a rede bancária também é concentrada geograficamente, com 60% das agências localizadas no Sudeste, havendo cerca de 2,1 mil municípios brasileiros sem uma agência bancária convencional, sequer.
Os custos operacionais de uma agência bancária convencional explicam, de alguma forma, a restrição da oferta dos serviços a famílias de menor renda, bem como sua ausência em tantas cidades. A lucratividade de uma agência convencional ocorre dentro de limites restritos, requerendo volumes elevados de clientela e de consumo de produtos por cliente. Mas esta situação está sendo radicalmente transformada pelo uso da tecnologia e de canais alternativos, que permitem reduzir custos operacionais e levar serviços a regiões onde nunca seria instalada uma agência bancária, bem como acolher clientes antes rejeitados pelo sistema.
O marco desta mudança foi a Resolução 2.707 do Conselho Monetário Nacional, de março de 2000, que permitiu às instituições financeiras a contratação de correspondentes bancários. A Caixa Econômica Federal recorreu à resolução para se lançar no desafio de oferecer serviços financeiros para milhões de famílias, aproveitando diferenciais únicos da instituição.
A Caixa tem notável vocação para lidar com o ‘‘pequeno’’, seja o mutuário de baixa renda, o microempresário ou o cidadão cujo rendimento é insuficiente para ser aceito como cliente por um banco convencional. Mais do que vocação, a Caixa conta com uma estrutura que a coloca muito à frente das demais instituição financeiras.
Trata-se da rede de correspondentes bancários, hoje constituída pelas 8.430 lojas de loteria espalhadas em 3,5 mil municípios. É uma rede, no sentido mais moderno do termo: as informações e negócios são tratados eletronicamente mediante tecnologia em tempo real, constituindo um dos maiores sistemas de comunicação do mundo. As lotéricas oferecem mais do que jogos. Hoje, recebem metade das contas de água, luz e telefone do País, pagam os benefícios do INSS e permitem depósitos e saques em poupança e conta corrente, dentre outros serviços, num volume mensal de aproximadamente 60 milhões de transações.
Aproveitando essa experiência vitoriosa com as loterias, a Caixa passou a credenciar novos correspondentes bancários. Nosso objetivo é estar presente, até o final de 2002, em 20 mil pontos do País, todos conectados de maneira eletrônica, atendendo a todos os 5.569 municípios. É por meio dessa rede que será possível distribuir novos programas do governo federal, como o Bolsa- Escola, do Ministério da Educação e da Cultura, e o Bolsa Alimentação, do Ministério da Saúde. O programa de distribuição de cestas básicas do Comunidade Ativa será monetizado e poderá ser distribuído por essa rede. Cada beneficiário receberá um cartão magnético que será lido pelo terminal do correspondente bancário, que se comunicará com os nossos sistemas centrais e autorizará o pagamento. De forma barata e segura.
Convênio assinado com a Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco) permitirá credenciar centenas de correspondentes bancários ainda este ano entre as 54 mil depósitos de todo o País. Estaremos assinando convênios semelhantes com redes de supermercados, postos de gasolina e farmácias. Para dar unidade a todos esses pontos, foi formatada a estratégia ‘‘Caixa Aqui’’, marca pela qual essa rede passa a ser conhecida e que será sinalizada em todos os estabelecimentos. Esses, além de receberem tarifas pelos serviços, ganham com o aumento do tráfego de clientes potenciais em suas lojas e, é claro, maior tráfego é sinônimo de maiores vendas.
Dessa forma, as comunidades desassistidas de serviços financeiros passam a contar com um mecanismo de desenvolvimento. Hoje, grande parte da renda comunitária, constituída dos benefícios sociais pagos pelo governo, é gasta nas praças onde se dá o pagamento ao beneficiário. É na cidade vizinha que ele termina por fazer suas compras. Essa renda deixa de impulsionar o ciclo econômico da comunidade onde vive o cidadão, agravando a polarização do desenvolvimento. A mesma dinâmica ocorre nos centros das grandes cidades em relação às periferias. É exatamente a situação que se quer mudar com o ‘‘Caixa Aqui’’. -
- EMÍLIO CARAZZAI é presidente da Caixa Econômica Federal

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