Como as nuvens no céu
Dizia Magalhães Pinto, uma das velhas raposas mineiras, que a política é como as nuvens no céu; você olha, elas estão de um jeito; abaixa a cabeça e torna a olhar, já estão de outro. De fato, qualquer exercício de futurologia, principalmente com relação à esfera do poder político, geralmente faz fracassar as previsões mesmo dos oráculos da imprensa mais bem informados.
Exemplo disso aconteceu à véspera das eleições para as presidências das Casas do Congresso, quando o jornalista Bóris Casoy apostou que haveria segundo turno na Câmara. A mesma aposta fizeram as oposições, notadamente o PT, talvez encantado com os arroubos de um dos candidatos à presidência da Câmara, Inocêncio Oliveira (PFL-PE). O PT chegou até a cogitar de uma aliança com o PFL, referendando assim a máxima de Darcy Ribeiro: O PT é o partido de esquerda que a direita mais gosta.
Eloquente, Inocêncio discursara declarando: Passei seis anos defendendo este governo. Serei seis vezes mais forte lutando contra as opressões desse governo. Algo na verdade estranho, pois se o nobre parlamentar é possuído por tanta indignação, por que levou seis anos para decidir ser contra a opressão? Diante do exótico discurso sentenciou o deputado João Almeida (PSDB-BA): Só tem uma explicação. O Inocêncio contraiu a doença da vaca louca. Segundo ainda o diretor de Redação da IstoÉ, quem assistiu à cena ficou atônito como se estivesse vendo uma banana comendo um macaco.
Já o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) disse no dia em que as eleições mais agitadas e disputadas do Congresso se realizaram (pois elas fazem avançar o jogo da eleição presidencial) que passaria a presidência do Senado ao mineiro Arlindo Porto (PTB-MG), que foi alcunhado de terceira via. Passou na verdade para um dos seus maiores adversários políticos, Jader Barbalho do PMDB (PA), que foi eleito pelos 41 votos dos 81 senadores. Uma vitória estrondosa contra o PFL, que amargou os apenas 28 votos obtidos por sua terceira via. Jefferson Peres (PDT-AM), apoiado pelos partidos ditos de esquerda, saiu-se pior, com 12 votos.
Na Câmara, a parceria entre o PMDB e o PSDB foi também bem-sucedida e o deputado Aécio Neves (PSDB-MG) fez 283 votos contra os 117 de Inocêncio e 81 de Aloizio Mercadante (PT-SP). Portanto, o neto de Tancredo Neves, que segue as pegadas do parente ilustre até quando vai à catedral rezar antes da eleição (Tancredo começou sua campanha presidencial indo rezar na igreja do alto da Serra da Piedade, em Caeté) deixou de ser, como disse um amigo meu, o Tancredinho ou o Aecinho ao se eleger presidente da Câmara com votação tão expressiva.
Na verdade, Aécio se tornou o terceiro homem da República, pois na eventualidade de faltarem o presidente e o vice-presidente, ele assume os destinos do País. E na Câmara, Aécio quer encarnar toda a força que o Poder Legislativo desfruta após a Constituição de 1988, pois uma de suas primeiras promessas foi por em votação, em março, a emenda constitucional que limita a edição de medidas provisórias, ou seja, limita o poder do Executivo. Ao mesmo tempo, discursou reforçando sua liderança sobre seus pares ao dizer que irá defender a instituição e cada um dos parlamentares dos ataques vis e das infâmias, e influenciar na política econômica do Brasil. Será que Aécio quer se tornar um primeiro-ministro, se não de direito pelo menos de fato?
No passado, quando Jânio Quadros renunciou, seu vice, João Goulart, encontrava-se na China. No Brasil os militares pretendiam seu impeachment, mas o Congresso rejeitou o pedido e foi proposta como medida conciliatória a implantação do parlamentarismo objetivando retirar o poder do presidente. Tudo se ajeitou e foi aprovada a Emenda Constitucional nº 4 que instituía o parlamentarismo. O primeiro-ministro foi o ex-ministro da Justiça de Getúlio Vargas, Tancredo Neves.
Assim, se no momento os analistas políticos são unânimes ao comentar o fortalecimento do ministro da Saúde, José Serra (PSDB), como sucessor de FHC, já está em gestação outra candidatura à Presidência da República, mais jovem e mais carismática, que se não se impuser em 2002 talvez passe primeiro pelo governo de Minas Gerais como quem sobe mais um degrau da escada do poder. O próximo passo poderá levar ao ponto mais alto da difícil subida. Note-se que Tancredo, que também foi governador de Minas em 1983, alcançou depois o cargo mais importante da República.
Exercícios de futurologia são sempre temerários, e aqui não se pretende tal coisa. Mas na espiral da História, fatos costumam se repetir, se não de modo idêntico pelo menos em essência. Tancredo, que conquistou a Presidência em 15 de janeiro de 1985, eleito pelo colégio eleitoral, foi derrotado pela morte e não chegou a governar. Mas seu neto ainda jovem está seguindo de forma nítida suas pegadas. Nada é certo, como as nuvens no céu, mas Aécio parece estar se preparando para a escalada da montanha. E de montanhas e de política, os mineiros costumam entender. Que não se fale em Itamar Franco, porque este não nasceu nas Gerais.
Em artigo publicado na Folha de S.Paulo no dia 15, o jornalista Luís Nassif comenta sobre o senador ACM. Reporta-se à sua importância na política nacional e à sua personalidade forte e autoritária. Ele é um dos últimos coronéis das antigas oligarquias mas que paradoxalmente foi capaz de perceber e se adaptar ao novo como quem navega por cima das ondas da modernização e não se afoga nelas.
Derrotado no Senado, ACM possivelmente ainda marcará presença no cenário político, inclusive com seus arroubos de inconformado. Seu grande adversário porém é o tempo. Sua tragédia, a morte prematura do filho Luís Eduardo, através do qual sonhava sonhos de um poder mais alto. Entretanto, Aécio prossegue no rastro do avô, mas com seus próprios passos, e isso dá o que pensar. O resto, bem, o resto fica nas nuvens do céu.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
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