COMÉRCIO HUMANO - Tráfico de pessoas movimenta US$ 32 bilhões por ano
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de março de 2010
Érika Gonçalves<br>Reportagem Local 
Mulher você vende e revende até ela ficar louca, morrer de Aids ou se matar
Tem que ter quase 4,5 mil relações sexuais para pagar a dívida inicial
Imagine estar em um país estranho, com idioma desconhecido e ser obrigado a se prostituir. Imagine ainda que você mal entrou na adolescência. Esta é a realidade de milhares de pessoas, vítimas de trabalho escravo. Segundo estimativas, 98% delas são mulheres e meninas.
A jornalista Priscila Siqueira faz parte da organização não governamental Serviço Mulher Marginalizada, formada em 1991 e que luta contra o tráfico de pessoas para exploração sexual comercial - a prostituição forçada. Esta não é, porém, a única forma de abuso. ''Tem o tráfico para órgãos, para adoção ilegal e para trabalho escravo'', relata.
Quantas pessoas são traficadas anualmente? E quanto isso movimenta em dinheiro?
A estatística é muito precária uma vez que nós estamos falando de um crime. Tudo é calculado em cima de projeções de ocorrências. A Organização das Nações Unidas (ONU) aponta de 1 milhão a 4 milhões de pessoas traficadas no mundo. Já a Organização Internacional do Trabalho (OIT) fala em quase 800 mil pessoas anualmente. Sem dúvida alguma é um crime que dá muito dinheiro.
No relatório de 2008 da OIT fala-se que vender pessoas dá mais dinheiro do que vender drogas. Hoje em dia vender pessoas já é o segundo crime mais lucrativo do mundo, perdendo para armas. O lucro é em torno de 32 bilhões de dólares anuais.
Por que as pessoas ainda se deixam seduzir pelas propostas de ganho fácil?
Eu sempre digo que o tráfico é como um iceberg, você só pega a ponta. Por isso não pode ser resolvido só com a questão policial. A ONU diz que não existe no mundo nenhum país que não esteja envolvido com o tráfico. Ou ele recebe, vende ou compra. A professora Maria Lúcia Leal, da Universidade de Brasília, fala que a rota do tráfico é a rota do dinheiro, das regiões mais pobres para as mais ricas.
Tem as crianças que são raptadas e obviamente não sabem o que vai acontecer. Mas falando de jovens, muitas vezes elas são enganadas por promessas de casamento, de trabalho como babá ou cuidadora de idosos, como bailarina ou mesmo como prostituta.
As causas são falta de emprego, falta de educação, falta de oportunidades, dificuldade para ganhar a vida. O machismo que faz com que a mulher se sinta um cidadão de segundo grau. São causas econômicas e causas culturais que estão na base da questão do tráfico.
O turismo sexual abre as portas para o tráfico?
Não é a mesma coisa. Mas obviamente, se você vai a cidades do Nordeste como Recife, Fortaleza, Natal, Salvador ou ao Rio de Janeiro, você encontra alemães enormes com meninas de 12, 13 anos, magrinhas, pequenininhas. É uma porta para o tráfico.
E o turista até propõe casamento e chegando lá a história é outra, não é isso?
De mil, somente uma ou duas têm sorte. A maioria se dá mal, muito mal. Eles pagam o passaporte, a roupa, a passagem e quando ela chega no país de destino a primeira coisa que fazem é tirar o passaporte, porque não tendo passaporte você não é ninguém. Uma organização internacional chamada Unanima, que é formada pelas congregações religiosas femininas da Igreja Católica, fez um estudo de quanto uma menina tem que trabalhar para pagar essa primeira dívida. Ela tem que ter quase 4,5 mil relações sexuais. É lógico que você não faz isso em uma semana nem em um mês.
Enquanto ela está ''pagando'' essa dívida, ela tem que comprar tudo do dono do bordel. Quando ela cansa e diz que quer ir embora, ele diz que a dívida é muito grande. Tem um cafetão no Canadá que deu um testemunho para uma revista e diz o seguinte: ''Eu prefiro mil vezes vender mulher a vender droga ou arma. Porque droga e arma você só vende uma vez, mulher você vende e revende até ela ficar louca, morrer de Aids ou se matar.''
Em relação às crianças, a maior parte é para adoção?
A maior parte é para pedofilia mesmo, embora tenha casos de adoção. Essas crianças que sumiram no Haiti, para onde acha que elas foram? No tsunami (na Ásia), quando sumiram milhares de crianças e adolescentes, provavelmente foram para exploração sexual ou para tráfico de órgãos.
Os principais destinos, então, são os países ricos?
Principalmente países de Primeiro Mundo. Mas veja o que acontece no Brasil. Temos uma situação muito estranha porque nós somos considerados o maior ''exportador'' de mulheres e meninas das Américas para exploração sexual comercial do primeiro mundo. O destino são Espanha e Portugal. Mas nós também recebemos. A indústria da confecção de roupas em São Paulo é feita em cima do trabalho escravo de bolivianos, peruanos, paraguaios e até mesmo coreanos.
E somos um país de trânsito, as pessoas que são traficadas de outros países ficam aqui um tempo ''trabalhando'' enquanto não são mandadas para a Europa. E finalmente temos o tráfico interno muito grande que é principalmente de crianças. Existem casos de crianças de 8 anos de idade. O tráfico externo pede meninas de 13 a 25, mas o interno é muita criança, muita menininha. É uma situação triste, vergonhosa, que a sociedade brasileira tem que dizer não. Tem que se indignar e lutar para que isso não aconteça.
Como a sociedade pode ajudar na guerra contra o tráfico?
Primeiro tomando consciência, se indignando. O Brasil respeita o Protocolo de Palermo (Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em especial Mulheres e Crianças), que foi criado na ONU em 2000 e do qual o Brasil desde 2004 é signatário. Nós temos uma política nacional de combate ao tráfico e temos um plano que é renovado de dois em dois anos. A sociedade brasileira precisa tomar consciência, procurar saber mais sobre essa questão.
E o governo tem feito o suficiente?
Nunca é suficiente. É claro que houve um avanço, mas o crime é muito mais avançado do que nós. Quando se descobre uma rota imediatamente muda-se essa rota. É preciso ir além do Estado. Temos uma parceria muito grande com a Polícia Rodoviária Federal. É isso que nós convocamos, se a sociedade civil não comprar essa briga a gente não vai resolver o problema.
E o governo age para identificar e repatriar vítimas, como isso acontece?
Tanto a política como o plano estão baseados em um tripé que é prevenção, responsabilização e apoio à vítima. Creio que o papel da sociedade civil é a prevenção. A responsabilização é trabalho da polícia, que vai atrás do traficante e o prende. Atendimento à vítima obviamente que a sociedade civil pode ajudar, mas só a estrutura do Estado pode atender tantas vítimas.
Existe uma cooperação internacional no combate ao tráfico?
Hoje a ONU vê a questão do tráfico como prioritária porque isso é internacional.


