Comércio exterior para micros - Luiz Carlos Delfino
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de outubro de 1998
Luiz Carlos Delfino 
Enfim, o governo federal acorda para o potencial exportador gerado pelos micro-empresários. Recentemente um secretário executivo do MICT disse em uma entrevista que 77% das exportações brasileiras estão concentradas nas mãos de 517 empresas. Isto é um absurdo. Nos países desenvolvidos, a participação de pequenos empresários no comércio externo é de proporção inversamente diferente.
O governo federal fala da meta deá US$100 bilhões de exportações gerais até o ano de 2002 a partir da política de dar mais sustentação às exportações brasileiras expressas em medidas como a criação da Câmara de Comércio Exterior (CAMEX), Sistema Brasileiro de Seguro de Crédito à Exportação, o programa Novos Pólos de Exportações (PNPE) do MICT, a reforma do Departamento de Promoção Comercial do MRE, a expansão da cobertura do Programa de Financiamento às Exportações Proex e a criação do PPE (Programa Especial de Exportação) que dá origem ao SIMPLEX (Sistema de Simplificação de Exportações) que por sua vez propõe como medida principal a não necessidade da contratação de câmbio nas operações de exportação até o limite de US$10 mil, podendo o pagamento ocorrer com a utilização de cartões de crédito internacionais, enquanto isto,á a APEX (Agência de Promoção de Exportação do Sebrae) fala do micro empresário participando em programas especiais de exportações que gerarão 1 bilhão de dólares até 2002 a partir da implementação de 06 programas assinados com associações de empresas brasileiras.
As medidas propostas passam pela participação em feiras e exposições, rodadas de negócios, informação comercial, comércio eletrônico e pesquisas de mercado, conscientização e capacitação gerencial além da adaptação de novos processos produtivos por meio de treinamentos e transferência de tecnologia propiciadas pela vinda de peritos do exterior.
Agora eu pergunto: Será que temos estrutura para desenvolver todas estas propostas ao empresário de pequeno porte? Pergunto, porque além de consultor de comércio exterior, presto serviços na área de planejamento e financiamento à micros e pequenos empresários e conheço profundamente a realidade do seu dia-a-dia.
Será que o micro empresário descapitalizado teria condições de investir na sua participação em feiras no Brasil ou no exterior? Estaria pronto para participar de rodadas de negócios já que sua estrutura muitas vezes não lhe permite o planejamento além do que estas rodadas certamente se realizarão nos grandes centros distantes de sua sede? Buscaria informações comerciais com o exterior e saberia interpretá-las de forma a possibilitar seu aproveitamento já que seu tempo é normalmente empregado nas atividades vitais ligadas à produção e comercialização local e que lhe permite a sobrevivência?á Possuiria meios eletrônicos para o comércio eletrônico? Assimilaria a condição de conscientizado e estaria receptivo para a transferência de tecnologia estrangeira já que normalmente os eventos relacionados ao repasse de informações (cursos, seminários, palestras, encontros, etc. ) ocorrem apenas nos centros maiores?
Na minha opinião, o que acaba acontecendo é que somente um reduzido grupo de pequenos empresários vão se beneficiar destes programas, principalmente aqueles instalados nos grandes centros e de nível cultural mais elevado, o que não representa a grande maioria. Isto tudo é para se pensar. E como não faço o gênero de apenas criticar, levo como sugestão para auxiliar no objetivo da interiorização de técnicas e informações de comércio exterior,á que estes órgãos realizem propostas aos Conselhos de Contabilidade de todo o Brasil no sentido de firmar parcerias para que esta classe profissional cumpra o papel de também assessorará o micro e pequeno empresário nesta prática. Sabemos que o profissional contabilista é o único profissional com quem o micro e pequeno empresário se obriga a manter relacionamento constante, o que não acontece com o profissional advogado, economista, administrador de empresas, engenheiro, etc. Então, porque não aproveitar a estrutura que possui a classe dos contabilistas que já se faz presente em cada cidade de cada Estado numa proporção que permite uma boa distribuição para a assistência de comércio exterior ao empresário do interior e de menor porte?
Sabemos pois, que o profissional contabilista que já é uma espécie de conselheiro do empresário para tantos temas, tem a facilidade de interpretar e assimilar tais técnicas a fim repassá-las através da assistência, falando a mesma língua do micro e pequeno empresárioá que por sua vez em um auditório grande e luxuoso de um grande centro distante do seu e ouvindo técnicos não comprometidos com o seu dia-a-dia, teriam maiores dificuldades de assimilação, além do que o profissional contabilistaá normalmente possui linha telefônica e micro-computador, (se não possuir, que se dê condições à ele para possuí-los) que são elementos necessários ao acesso à Internet que por sua vez é ferramenta imprescindívelá na pesquisa e transferência de dados e informações comerciais).
Reflitam todos: Quais seriam os ganhos que o contabilista teria com isto? - Com uma estrutura desta, quais seriam as facilidades para se difundir informações de comércio exterior?
Deixo claro que não quero com estas linhas, ao eleger do meu ponto de vista o Contabilista como único e mais preparado profissional para auxiliar todo e qualquer processo de interiorização de práticas de comércio exterior, desmerecer o administrador em comércio exterior ou qualquer outro profissional liberal ou ainda sobrecarregar o profissionalá contabilista com uma função que não lhe é preeminente. É que além da estrutura que eles possuem, tenho visto que nos cursos e palestras de Comércio Exterior que tenho ministrado nos últimos tempos, uma presença grande de profissionais contabilistas interessados neste ramo do conhecimento e não é porque eles têm interesse de comprar ou vender ao exterior e sim, para poder assistir seus clientes empresários em suas dúvidas por assuntos ligados à exportação e importação.
- LUIZ CARLOS DELFINO é economista e consultor de empresas na área de planejamento, financiamento e comércio exterior


