Comer bem ou dormir bem?
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quinta-feira, 06 de junho de 2002
Ruth Meira 
No mercado financeiro se diz que, em matéria de investimento, o tamanho do lucro que se deseja depende da prioridade de cada um: você quer comer bem ou dormir bem? A recente crise dos fundos de renda fixa e DI, que vem abalando os nervos dos investidores, confirma a teoria. O cotista de fundo viu o seu capital encolher subitamente e está se perguntando se deve continuar faturando alguns reais a mais, bancando um risco que na maioria dos casos ignorava, ou se é hora de migrar para o porto seguro da caderneta de poupança, com os seus jurinhos minguados. Tão difícil quanto escolher é entender o que se passa nessa caixa preta do mercado financeiro, do qual todos participamos, voluntariamente ou não.
O que se vê é que, de repente, os investidores externos se desinteressaram pelos títulos da dívida do governo brasileiro, base dos fundos de investimentos em que milhões de brasileiros apostam convictamente hoje as suas economias. Quem conseguiu ter uma sobra no orçamento nos últimos anos foi convencido pelo etéreo mercado a aplicar seus preciosos reais em um fundo de renda fixa ou fundo DI, mais rentáveis que a poupança.
Quase sempre, esse investidor é mal orientado pelo banco que vende os papéis. Não sabe, por exemplo, que ao ingressar em um fundo está, basicamente, emprestando dinheiro ao governo federal para receber com juros no futuro. Em muitos fundos DI, até 80% da carteira é composta por títulos da dívida pública. Em outras palavras: aplicar em um fundo destes é fazer uma aposta no governo. Mas isso não fica claro ao incauto que encontra toda a facilidade da tecnologia para transferir seu capital da conta corrente para o investimento, em questão de segundos, na boca do caixa eletrônico.
Foi só os bancos ajustarem o valor dos fundos à realidade das finanças do País o que aconteceu discretamente no feriado de Corpus Christi para o capital de milhões de pessoas e empresas encolher, revelando que nem tudo é assim tão simples como parece. De uma hora para outra o investidor brasileiro descobre que vinha apostando as suas fichas no cavalo azarão, que, por ser mais desacreditado, paga melhor.
Bancos e analistas têm afirmado que a situação é passageira e que o ajuste feito na forma de remunerar o investidor vai tornar os fundos mais confiáveis. Tem fundamento. Também não é caso para o investidor ficar histérico se perdeu alguns reais quem optou pelos fundos nos últimos anos já teve larga vantagem sobre a modalidade mais segura do mercado, a poupança. Enquanto os fundos devolveram o capital investido com correção de 515% nos últimos oito anos, a poupança, neste período, restituiu o investimento com apenas 277% mais. Perder ou ganhar faz parte das regras do jogo mesmo as mais obscuras.
Mas fica uma pulga atrás da orelha de quem pára para pensar sobre o estresse que tomou conta do mercado financeiro. O que mudou para a confiança no governo brasileiro começar a ruir, levando junto os fundos? O medo do investidor internacional talvez não esteja relacionado exatamente à escalada do candidato petista à Presidência, Lula, nas pesquisas eleitorais, mas ao fim de um fértil período para os bancos em que o endividamento da Nação saltou de R$ 60 bilhões para R$ 600 bilhões, rendendo juros astronômicos a esses parceiros das finanças nacionais. De esquerda ou direita, o futuro presidente herdará uma dívida gigante. Os bancos estrangeiros sabem disso melhor que qualquer um de nós.
- RUTH MEIRA é jornalista da Folha.


