Comendador Ventura por fora e por dentro - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de janeiro de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Aos seis anos de idade gostava de ler nos jornais estórias em quadrinhos, e havia uma em especial que me agradava mais. Tratava-se dos quadrinhos do Comendador Ventura por fora e por dentro. O Comendador vestido com um esvoaçante fraque preto, dizia uma frase para outro boneco, enquanto dentro de uma nuvem sobre a sua cabeça outra frase contradizia o que ele externava pela fala. Podia, por exemplo, aparecer o Comendador dizendo para uma senhora gorda e sorridente: - Como a senhora está bela, jovem e elegante! Na nuvem, porém, o verdadeiro pensamento era o seguinte: Que bucho desgraçado! Essa dona Mariquinha está cada vez mais gorda, feia e velha.
Bem mais tarde é que pude perceber o refinado sentido crítico da estorieta. Aquilo ilustrava com rara felicidade a dupla moral ou o conhecido faça o que eu digo mas não faça o que eu faço, o que pode estar ligado a várias características humanas como hipocrisia, defesa do julgamento alheio, vontade deliberada de trapacear, necessidade de mentir, constrangimento diante de certas situações etc.
Exemplos de dubiedade podem ser percebidos através de resultados de pesquisas. Pergunte-se a um entrevistado qual a sua religião e a grande maioria se dirá católica, mesmo que não seja praticante ou que à noite costume prestar culto a Oxóssi ou a Oxum-Abalô, nesse sincretismo tão comum ao nosso país.
Pergunte-se sobre a questão do momento, ou seja: o senhor(a) é a favor ou contra o transplante obrigatório de órgãos? Fatalmente o resultado apontará para a quase unanimidade de pessoas que se posicionam a favor desde, é claro, não sejam retirados seus órgãos ou de seus parentes semi-mortos ou mortos.
Se esta postura se repete sem parar no cotidiano, naturalmente a política é a esfera máxima por onde transitam os Comendadores Ventura. Não só palanques eleitorais são ricos em contradições que raiam ao absurdo, como o dia-a-dia do poder que é repleto de simulações recobertas com o doce chantilly das palavras vazias. Além disso, pergunte-se a um candidato se ele é candidato, e invariavelmente dirá que não, apesar de já estar em campanha cerrada.
Assim, para ilustrar o agir do Comendador Ventura, nada melhor que a recente entrevista dada pelo político Ciro Gomes à revista Marie Claire. Tocado pela síndrome de Collor, tangindo pela sua incomensurável vaidade, guiado pela ambição desmedida ao chegar ao topo como menino prodígio que já galgou posições invejáveis na hierarquia do poder, ele é o rei da contradição e da simulação.
Para começar, o ex-amigo do presidente Fernando Henrique Cardoso, que morou nos Estados Unidos, escolheu o Partido Popular Socialista (PPS) como trampolim para a presidência da República. O PPS é o antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e que foi o mais afetado pela conjuntura internacional quando chegou ao fim a União Soviética, em torno da qual gravitava. Mas bem antes disso o PCB havia se tornado pouco revolucionário e burocraticamente ligado ao capitalismo, uma vez que convivia bem com esse sistema através da ocupação de cargos. Do PCB pode-se dizer que sempre foi ruim de voto mas bom de nomeação. Nossos comunistas nunca perderam a oportunidade de se alçar a um posto de comando. Agora acabou-se o Partidão com o fim das Repúblicas Socialistas Soviéticas, passando a chamar-se Partido Popular Socialista (PPS). A partir daí, segundo os ex-comunistas, deixou-se de lado a defesa do Estado totalitário e da ditadura do proletariado. Sob o arco-íris que substitui a foice e o martelo, sua legenda tornou-se subitamente socialista, pluralista, humanista, libertária e radicalmente democrática, segundo definição do presidente do partido, Roberto Freire. Uma verdadeira diluição do vermelho em tons róseos, quase à la Rosseau, para nenhum Comendador Ventura botar defeito. É esse partido que Ciro Gomes adotou recentemente.
Quanto à entrevista, é suficiente apenas transcrever algumas das observações da própria Marie Claire: Ciro Gomes sonha grande e pretende ser moderno - ainda que sua formação interiorana muitas vezes traia o discurso cool. Considera a monogamia uma violência, mas quer a fidelidade da mulher; defende a legalização do aborto, mas diz que não o permitiria na família; é a favor da discriminalização da maconha, mas confessa não saber que tipo de lesão ela causa. Tachado de impulsivo e valentão, adjetivos que recusa, o ex-ministro faz a linha franca, tipo doa a quem doer. Ciro gosta de dizer que uma das suas principais qualidades é a capacidade de expor contradições - capacidade, aliás, que ele exercita sem cerimônia. Como quando, por exemplo, acusa Fernando Henrique (que em passado recente apontava como ídolo) de fazer um governo convencional e rendido à velharia política. Seu alegado apoio aos homossexuais - um pessoal sensível, segundo diz - também não o impediu de certa vez classificar como coisa de bicha sem marido crime cometido contra um conterrâneo seu.
Ao ler essas coisas, não sei porque me lembrei tanto do Comendador Ventura por fora e por dentro.


