Quando vistas de perto, a maioria das celebrações perdem a dignidade (Napoleão)
Acomete-me o mesmo sentimento de 13 de maio de 1988. Só que, desta vez, com dois anos de antecedência - um pouco menos, talvez.
Quando se iniciou aquele ano, as memórias escolares faziam-me imaginar uma grande festa popular, em que os negros, nas ruas, iam comemorar sua libertação, pela bondosa princesa Isabel, filha do imperador, cem anos antes... Algumas instituições, de fato, começaram o ano pondo seus blocos na rua, até que o primeiro negro perguntou ao último branco - Celebrar o quê?
Lembro-me bem de nós, brasileiros brancos e pálidos, colocando o rabo simbólico entre as pernas, para fazer uma reflexão sobre que país tinha sido este em que - tão recentemente - homens e mulheres eram comprados e vendidos como bichos.
Na verdade, ainda não parei de refletir - e o relógio da Globo desperta-me para uma contagem regressiva ao ano 2000.
Acho bonito esperar o ano 2000. E não dou a menor atenção aos cientistas do óbvio que querem estragar a festa da gente observando que o milênio só começa em 2001. Pombas para o milênio. Vivemos de hora em hora, dia-a-dia, ano após ano, mas poucos se ligam nos séculos e muito menos nos milênios. Milênio é idade de montanhas - e de uma ou outra árvore, daquelas imensas, da Califórnia. O que estamos celebrando é a chegada deste ano 2000 - tão redondinho, cheio de zeros. E os cheques, que vamos todos assinar, começando o ano por um 2, no lugar do 1 que vem sendo usado nos últimos 999 anos...
Quando era criança, fazia as contas e me via um trôpego ancião de 59 anos, olhando pela janela e vendo, de alguma forma, chegar o tão-esperado Ano 2000. Mas parece que querem transformar o ano 2000 no 5º centenário de um episódio passado nessas terras, entre 21 de abril e 3 de maio do ano de 1500 e comemorar o ‘‘descobrimento do Brasil’’.
Pois acho que hoje é um dia tão bom quanto qualquer outro para protestar: dentro de dois anos não haverá nada que nós, brasileiros, devamos celebrar, além da estética gregoriana do número 2000 no calendário.
É possível que os portugueses, em Portugal, queiram celebrar o aniversário de uma de suas proezas, que lhe asseguram uma certa ‘‘grandeza’’ de passado. Quem já esteve em Sagres, sentiu a imensidão daquele marzão besta, a ser atravessado em frágeis caravelas. Certamente, um ato de ousadia.
Mas se você, irmão brasileiro, for índio, por exemplo? Vai celebrar o massacre e espólio de sua raça pelos invasores vindos do outro lado do oceano? E - se for negro - ainda pior. A abertura daquelas terras à exploração econômica dos europeus significava a condenação precoce de milhões de seres humanos à humilhação abjeta e covarde da escravidão. Se for mestiço - caso de metade da nossa população, poderá refletir sobre ambas as realidades.
Sobram os ‘‘brancos’’, que compomos a outra metade. Como descendentes distantes de portugueses, não temos porquê nos envergonhar do genocídio promovido pelos nossos avoengos. Mas também nada temos que festejar. E - se foram nossos avós italianos, polacos, libaneses, japoneses ou gregos - é certo que, ao aqui chegar, se uniram aos que já estavam para ajudar a formar uma nação, que hoje existe, mais ou menos bem-sucedida, chamada Brasil. Essa nossa pátria comum merece todo o respeito, de nós e dos outros, mas não foi descoberta, nem inventada, no ano de 1500. Ela está sendo construída todos os dias através dos erros e acertos de todos os que aqui vivem e viveram, por opção ou desígnio. Vamos, sim, nos dar as mãos para esperar, com festa, o ano 2000. Mas vamos esquecer esse tal ‘‘descobrimento’’...
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (Rio de Janeiro)

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