A taxa elevada de mortalidade infantil e os milhares de portadores de doenças já extintas em outros cantos do planeta, como a dengue, a tuberculose, a hanseníase e a malária, são alguns dos indicadores da realidade da saúde pública no Brasil e confirmam a precariedade do atendimento médico à população. Não houve muito a se comemorar neste 7 de abril, Dia Mundial da Saúde. Muitos menos para os 120 milhões de brasileiros que não possuem planos de saúde privados. Apenas competência administrativa e maiores verbas para a Saúde não serão suficientes para reverter esse quadro. É preciso, antes de tudo, coragem e compaixão. Coragem para transformar uma promessa eleitoral numa vontade política. E compaixão com os mais fracos e necessitados.
O discurso público só é verdadeiro quando se traduz em atos e, neste caso, em verbas. A saúde é um problema de todos, assim como a estabilidade da economia, o desemprego ou a violência. Porém, o poder de decisão e os rumos das mudanças estão nas mãos do presidente da República. Essa é sua missão principal. Manobras políticas, com substituição de ministros ou o desvio da arrecadação da CPMF, demonstram a continuidade do descaso com os mais fracos. A cada ano, e desde 1995, o orçamento para a Saúde vem sendo reduzido, mas as autoridades buscam sempre colocar a responsabilidade sobre a má administração dos recursos e as fraudes. Se é verdade que há desperdício e falcatruas, também é fato que o bolo total de verbas vem sofrendo significativos cortes.
Para efeito de comparação, a iniciativa privada na área de saúde trabalha com orçamento anual de quase US$ 15 bilhões, para uma população de 40 bilhões de usuários, eximindo-se do tratamento de uma série de doenças e não realizando nenhum tipo de medicina preventiva, como vacinação ou combate a epidemias ou endemias. Por analogia, o orçamento da Saúde precisaria destinar não menos que US$ 60 bilhões para a assistência médica anual (quatro vezes mais do que o atual orçamento). Em outros termos, é preciso destinar grandes verbas paralelamente às reformas administrativas. O governo, até hoje, fica optando entre essas duas prioridades - sem realizar nenhuma das tarefas - e ainda não define claramente as responsabilidades da iniciativa privada e do serviço público na assistência médica global.
Além de irrisório, diante da extensão do problema, o orçamento da Saúde ainda chega com grande atraso aos seus destinos finais. Em 1997, esses atrasos comprometeram seriamente o trabalho da vigilância sanitária no Rio de Janeiro, permitindo o avanço rápido da dengue em 1998. Assim como o atraso das verbas para o controle de qualidade de sangue acabou engrossando as estatísticas dos contaminados com o vírus da Aids. É preciso ressaltar para os economistas que o tratamento médico não distingue entre o rico e o pobre, na hora de administrar o remédio ou usufruir da tecnologia. Se há real vontade em vencer a doença, é preciso usar o máximo de recursos - e isso custa dinheiro.
A solução dos grandes problemas começa com a vontade política. E a vontade política mistura-se ao caráter do dirigente. Não há dúvida de que existem muitos ministros e políticos sinceros, assim como funcionários públicos eficientes. Porém, é preciso que o chefe da Nação consiga traduzir em fatos seus compromissos assumidos em campanhas anteriores. Não é o povo que deverá estar a serviço de seu governo, mas sim o governo a serviço do cidadão. Isso é a ética da democracia.

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