Começa a maturidade da Sercomtel
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de abril de 1997
Rubens Pavan 
O governo federal recebeu na semana passada as propostas comerciais para a Banda B, sacramentando a abertura do mercado das telecomunicações. Nós, da Sercomtel, não participamos. A Banda B, como a imprensa já mostrou, é um excelente negócio apenas para os gigantes multinacionais. O desenho de ocupação deste mercado, infelizmente, não favorece as pequenas e médias companhias telefônicas. Por mais eficientes e lucrativas que sejam.
No começo, a Banda B nos interessava porque se trata de uma modalidade inexplorada e específica de celular. Celebramos um protocolo de intenções com a Samsung e a Korea Telecom. Partimos para a prospecção de dados, elaboração de projetos e áreas de interesse. Em fevereiro, quando saiu o Edital de Licitação, nos deparamos com normas amplamente favoráveis aos grandes do mercado e absolutamente restritivas a operadoras como a Sercomtel e até mesmo a seus prováveis parceiros. O Edital exigia que os consórcios possuíssem, instalados, milhares de telefones. Basta ver que entre as empresas participantes estão a ATT, Bell South, Air Touch (EUA), DDI (Japão), Telesystem (Canadá), e grupos nacionais de peso, como Organizações Globo, Bradesco, Banco Safra e os maiores empreiteiros.
Do ponto de vista econômico, havia ainda uma outra dificuldade. Se a Sercomtel quisesse participar com, digamos, 10% de um consórcio, teria de investir perto de R$ 200 milhões, quase o dobro do seu faturamento bruto no exercício de 1996. O resultado foi que a CRT, de Porto Alegre, e a Ceterp, de Ribeirão Preto, operadoras igualmente autônomas do sistema Telebrás e admiradas pela competência nos respectivos mercados locais, também ficaram de fora.
Esta é a explicação e, francamente, penso que não temos de lamentar nada, como já disse aos colegas gaúchos da CRT, em reunião dias atrás. A Sercomtel não faz o marketing da lamúria, trabalhamos com os dados do mercado e sabemos que no jogo real da economia, muitas vezes, tamanho é documento. O melhor a fazer é tratarmos de redirecionar nossos interesses para outros segmentos de mercado.
O aspecto positivo disso tudo é que foi aberta a oportunidade de prestarmos serviços como operadora das futuras concessionárias da Banda B em cidades de médio porte. É nossa especialidade. Outra alternativa é disputar o mercado da Região Norte do País, para o qual não apareceu nenhum interessado. Mesmo assim, só se reduzirem o valor mínimo de investimentos e aumentarem os prazos. Estudamos também o segmento da transmissão de dados, o serviço de trunking (grupo fechado de celulares) paging (central de recados pelo celular), TV a Cabo, Internet e utilização intensiva de satélites. O governo já anunciou a privatização da telefônia fixa, e ela também nos interessa porque temos tecnologia e experiência de sobra nesta área. A Sercomtel e a Telepar podem se entender sobre projetos para a rede fixa e telefonia móvel.
As telecomunicações apresentam novidades com uma rapidez impressionante. Estratégias são modificadas pelo avanço da tecnologia e acirramento da disputa comercial. É sabido que as telecomunicações alavancam as economias desenvolvidas e o Brasil passou a depender deste setor para sua evolução econômica. Os novos investimentos já mostram seus efeitos no mercado. Nossa empresa evoluiu, corretamente, de autarquia para S/A. Definitivamente, não há como sustentar a defesa da velha autarquia quando dez consórcios multinacionais se apresentam na disputa da Banda B do Paraná - e aí se inclui Londrina. Desinformadas, algumas pessoas ainda se manifestam sobre o assunto com argumentos anacrônicos e um tanto apaixonados. Eu penso que precisamos conhecer direito as mutações do mercado e das tecnologias para entender o papel que estará reservado à Sercomtel na globalização.
Como autarquia, de que maneira poderemos enfrentar, por exemplo, a ATT, que poderia baixar o preço dos seus telefones em Londrina, sem abalar o seu poderoso orçamento? Minúscula e espremida pela competição, uma autarquia municipal só trabalhará, quando muito, para pagar seus funcionários, enquanto seu lobo não vem. A autarquia seria asfixiada em poucos dias, sem oferecer qualquer resistência. A abertura do mercado das telecomunicações definitivamente não contempla autarquias. Uma S/A pode buscar sócios privados, tecnologia, e aumentar sua capacidade de investimentos, elevando seu capital em ações, fomentando projetos com mais liberdade econômica. Não nos garante invulnerabilidade, mas nos deixa mais fortalecidos nos mercados, a exemplo da CRT, Ceterp e CTBC. A sociedade anônima nos livra também das injunções políticas diretas. A Prefeitura de Londrina, por exemplo, está fazendo o Banco do Empreendedor, uma das boas promessas do então candidato Antonio Belinati, apenas com a remuneração das ações a que o Executivo tem direito como sócio majoritário da empresa. Não se trata de empréstimos da Sercomtel, nem de permutas ou financiamentos. Trata-se de cumprir a lei da S/A.
A Sercomtel não tem mais o monopólio das telecomunicações em Londrina, e isso leva a um desafio empresarial. É ponto pacífico, queiramos ou não. Virá uma fase em que só sobrarão os melhores, aqui, e no resto do País. Pode ser que o monopólio volte ao mercado, um dia, mas será exercido por uma empresa que demonstrar estrutura e volume de capital. O choque das mudanças causou perplexidade, no início, temos de reconhecer, e hoje provoca confiança. O crescimento ocorrerá na medida em que melhorarmos a performance técnica e científica, introduzindo padrões empresariais aos procedimentos herdados da velha autarquia, principalmente nos serviços prestados ao cliente. Nesta área, fazemos um grande esforço interno para obter o ISO 9002 em 20 quesitos. Uma decisão inédita, nenhuma operadora está almejando a Qualidade Total como nós.
Aumentamos a velocidade de acesso à Internet e temos mais de 2500 clientes, e esse serviço tende a crescer, como vem ocorrendo no mundo todo; abolimos a taxa de adesão para o serviço celular e selamos uma parceria para que os digitais possam ser vendidos a um custo mais barato; estamos substituindo os telefones públicos, de ficha, por aparelhos de cartões indutivos; nossa plataforma de mensagem já oferece atendimento automático a cerca de 7000 clientes; digitalizamos a rede para eliminar ruídos e distâncias no transporte de dados; estamos avaliando a idéia do Teleporto, para reunir num único local todos os serviços ligados à informática e ao mundo das telecomunicações, para a Sercomtel ganhar competência e atender, inclusive, as centrais de processamento de dados das agências bancárias da região.
Tenho satisfação em transmitir estas informações sobre a Sercomtel porque trata-se de um direito dos acionistas públicos e dos usuários, assim como será também um direito dos futuros acionistas privados. Desde que assumi, esta é a minha postura junto ao Conselho de Administração e à imprensa, pois entendo que a transição empresarial vivida pela Sercomtel interessa a toda a comunidade. Insisto que a abertura de mercado trará fortes mudanças, inclusive de mentalidade, e que não devemos temê-las. Sem monopólio, aprenderemos a trabalhar em sociedade e assumiremos riscos, como qualquer empresa. Até hoje, fizemos o que nos foi permitido, e fizemos bem, montando a infra-estrutura tecnológica do mercado londrinense e surpreendendo com o pioneirismo do celular digital. Tudo vai depender agora da nossa qualidade, garra e talento para sobreviver à competição desencadeada pelo governo federal.
Esse negócio de sair de casa e enfrentar o mundo, depois de recebermos uma boa educação, chama-se maturidade.


