Comboio cultural: uma inversão de valores
Sebastião Interlandi Júnior
Se fosse em estados como o Acre ou Rondônia (com todo o respeito que merecem), o comboio cultural seria plenamente aceitável. Tem a ver, mas adotar esta prática mambembe de levar cultura de cidade em cidade como projeto de governo é, no mínimo, medieval, além de uma inversão total de valores. É fazer o acessório virar principal, a Terra girar em torno da Lua. Um estado como o Paraná, que dispõe de tecnologia de ponta não pode retroceder na área cultural dessa maneira.
É constrangedor para nós, produtores e agentes de cultura, (músicos, bailarinos, atoresa, etc.) constatarmos que o Paraná tem caviar guardado na geladeira e dá mortadela para o povo. E o que é pior, a preço de caviar. Explico. Em vez de levar ópera e orquestra de verdade em produções viáveis, oferece opereta molambenta. Senão vejamos: o governo mantém uma TV educativa, instrumento poderoso para propagar cultura de qualidade aos pedaços. Uma Orquestra de corpo de alta qualidade, desprestigiada. Um Corpo de Baile, que já fez história, praticamente inativo. São instituições que pertencem ao povo, mas o povo não se serve delas.
Eu fico imaginando aquele lavrador do interior do Estado, voltando à tarde para casa ao passar pela praça vê aquele ônibus colorido estacionado. Aproxima-se porque há uma pequena multidão e vê um quarteto de cordas. Fica uns 15 minutos, acaba o cigarrinho de palha e segue seu caminho, meio sem entender, mas pensando ‘‘puxa, que bonzinho o governo mandando isso para nos divertir...’’ e no dia seguinte continua a vida sem que nada especial tivesse acontecido. Agora imagino o mesmo lavrador saindo à noite com a família, para ver na mesma praça um espetáculo com uma orquestra sinfônica (ou dança, ou teatro, etc.) de verdade, que já viu antes na TV e sabe que lhe pertence, inundando sua praça de música e fazendo-o se sentir importante por isso. É outra coisa.
O custo anunciado do projeto, algo em torno de R$ 2 milhões, seria mais que suficiente para melhorar a TVE e ainda levar a Orquestra e Corpo de Baile estatais pelo interior com excelentes produções. Isto sim é um projeto cultural. Ou seja, este recurso seria melhor empregado sem ter que ‘‘inventar’’ nada, apenas fazendo funcionar o que já existe. O governo comporta-se como aquela criança que compra uma bicicleta nova só porque a sua está com o sininho quebrado.
O porquê disso tudo é simples: visibilidade. Parecem os CIEPS do Brizola. Foram feitos todos ao longo das principais vias de acesso do Rio de Janeiro: visibilidade. Uma amiga arquiteta carioca ao comentar sobre o assunto, provou-me por A mais B que, com um investimento muito menos, daria para reformar as instalações da rede pública, equipando-as com piscinas, quadras etc.; melhoraria o salário dos professores e cumpriria as mesmas nobres finalidades dos CIEPS.
O comboio cultural, num estado como o Paraná, não tem importância para nota nem em revistas de sala de espera, numa política cultural descabida, equivocada. O projeto às custas de muita mídia pode até repercutir nacionalmente mas não encontra nenhuma ressonância por aqui. É política cultural para inglês ver.
- SEBASTIÃO INTERLANDI JÚNIOR é músico da Orquestra Sinfônica do Paraná

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