Os números da violência no País são maiores do que o divulgado pelas autoridades. Isso ocorre porque muitas vítimas não registram queixa - é a chamada cifra negra da criminalidade. Há quem diga que os assaltos se tornaram rotina e não é possível ir a uma delegacia toda vez que acontecem. Essa apatia também é fruto do descrédito em relação ao trabalho da polícia. As pessoas sentem-se inseguras e quando precisam do serviço de policiamento, muitas vezes, se frustram. A análise é do coronel da reserva da Força Aérea Brasileira (FAB) Carmelo Zapalá Giufridas, que é membro do Conselho Comunitário de Segurança de Londrina (Conseg).
Ele considera que a demora no atendimento de ocorrências é um fator determinante para as pessoas não confiarem na polícia. ''Para que esperar por uma equipe da polícia que chega duas horas depois de chamada, faz perguntas irritantes e ainda agride o assaltado, que está nervoso com a demora? Quem passa uma vez por isso não quer mais ter esse contato'', alfineta.
Por que existe um desgaste na relação entre a polícia e a população?
Esse desgaste surge da falta de profissionalismo. Um exemplo: quando a pessoa vai reconhecer um bandido, ela fica exposta. Não há uma separação de vidro espelhado. A pessoa tem que apontar. Ninguém quer passar por isso, então muitos evitam esses processos. A polícia não pensa nos danos que traz para o cidadão. Ela quer contabilizar, manipular a estatística e pegar casos fabulosos para manter os programas de televisão.
Aproximar os policiais da comunidade é uma forma de resolver esse problema?
Não adianta colocar um monte de policiais no Calçadão como vitrine, protegendo comerciante. Coloca aqui e os assaltantes assaltam em outro lugar. O problema de segurança não é problema de polícia, é de política. A polícia é um braço da política. Segurança custa caro. Um efetivo significativo está protegendo governador, prefeito, vereador, juiz. Essas pessoas têm o que precisam. O resto é o resto.
O que deve ser feito para melhorar essa relação?
Talvez a relação seria melhor se em vez de propaganda com cartazes de policiais sorrindo, cuidando de crianças ou ajudando velhinhos a atravessar a rua, as cenas desse marketing fossem reais. Se o atendimento fosse rápido, ajudaria muito. Já precisei da polícia e ela chegou duas horas depois. No Conseg, por exemplo, a polícia não aparece. Talvez porque não tenham interesse nenhum em ouvir nossas reclamações. Que adianta colocar mais rádio e viatura se não atendem as ocorrências que poderiam atender? A pessoa chama uma, duas vezes. Depois disso, entende que não adianta chamar. Essa é a maior derrota para a polícia.
Mas se a população não chama a polícia ou não registra queixa, não está contribuindo com o crime?
Se a polícia com a informação que tem, que não é pouca, não consegue resolver os problemas, será que mais informação pode resolver? O que importa é respeitar a informação, ir atrás. Eu digo porque já levantei informação e nenhuma atitude foi tomada. Talvez já fosse conhecida e não havia interesse de mudança. Como, por exemplo, um ponto de passagem de droga onde a polícia vai regularmente para receber a sua parte.
Como manter um policiamento de qualidade?
Eu sugiro treinamento constante. Que adianta correr tantos metros para entrar na polícia e depois que se forma não ter preparo físico, não conseguir correr atrás dos bandidos? É só observar nas formaturas ou mesmo nas ruas. Há gente extremamente gorda na polícia. Como vai pular um muro atrás de um bandido? Há também uma timidez muito grande. O policial tem que se comunicar.
A formação de três meses para o ingresso na polícia é suficiente?
O policial quando se forma fica praticamente livre. É uma característica do trabalho. Ele tem que tomar decisões sem consultar superiores. O médico para tomar uma decisão teve seis anos de formação, mais três ou quatro de residência. O advogado passa por vários estágios para tomar determinadas atitudes. Três meses de preparo é muito pouco tempo para cada matéria. Ele não vai ter, por exemplo, aulas de psicologia ou sociologia. Como vai entender que o bêbado ou o drogado são pessoas com problemas sociais, que precisam de ajuda? Não adianta bater ou prender, vai criar mais trauma. Esse tipo de preparo que o psicólogo e o advogado têm, o policial deveria ter porque a atividade dele é tão ou mais importante que a desses profissionais. Ele pode administrar o problema antes de nascer.
Os policiais não sabem se comunicar com a população?
Vou dar um exemplo. Houve um caso em que chamaram a polícia por causa de som alto. Os policiais se desentenderam com os donos da festa. Foi uma tragédia. O comandante foi dar uma explicação e disse que era um acidente de serviço, e acabou perdendo o comando. Os policiais disseram que não podiam sair desmoralizados. Esse tipo de prática é feita por quem se acha um herói. O verdadeiro herói é aquele que, quando leva uma cusparada no rosto, tem que entender que a pessoa que praticou a ofensa não está em situação de saber o que está fazendo. O herói pega um lenço e limpa. Essa é a característica que devemos encontrar em um policial.
Então, a polícia não entende seu papel?
Que adianta dizer que a instituição é gloriosa, quando na prática ele bate em pobre? Quando o policial não consegue entender uma necessidade social que está explodindo na mão dele? Todo o desvio de verba não vai refletir no palácio do governo ou na prefeitura. Vai refletir na mão do policial, que é o fim da linha.
Todo mundo que frequentou uma delegacia sabe o clima de violência e desordem que encontra. Não é um clima onde a polícia e o Estado visam a acalmar o cidadão. É um clima de terror. Eles punem quem chega, independentemente se é culpado ou não. É uma coisa que não faz sentido, você paga a polícia para ser protegido e acaba tendo medo dela.
Aumentar o efetivo e o número de viaturas não é uma boa opção para melhorar o patrulhamento?
Aumentar o efetivo pode aumentar apenas as despesas e não a segurança. Porque mais da mesma coisa não resolve. No passado havia pontos de polícia que quando se desse um alarme era possível criar barreiras, setoriar a cidade. Quando acharam meu carro, que havia sido roubado havia dois dias, descobri que os ladrões haviam passado por um pedágio duas vezes. Fui ao local e a proteção para as câmeras estavam vazias. Não tinha câmera nenhuma. Estamos enganando a quem? Que segurança nos é oferecida?


Um efe­ti­vo sig­ni­fi­ca­ti­vo es­tá pro­te­gen­do au­to­ri­da­des


Vo­cê pa­ga a po­lí­cia pa­ra ser pro­te­gi­do e aca­ba ten­do me­do de­la

mockup