Da Redação
O comando-geral da Polícia Militar garantiu à Folha, esta semana, que vai investigar todas as denúncias feitas por policiais militares na série de reportagens que vêm sendo publicadas pelo jornal desde semana passada. Embora não concordando com o teor de várias denúncias, o comandante-geral da PM, coronel Guaraci Moraes Barros, afirmou – em uma entrevista exclusiva – que nada será deixado de fora nas investigações.
A repórter Telma Elorza foi até Curitiba para ouvir o comandante, em uma conversa que participou também o coronel Flávio de Modesti, chefe do Comando de Policiamento do Interior (CPI); coronel Mizael Henrique Araújo Bortolon, diretor de pessoal da PM; major Altair Mariot, coordenador do Serviço de Assistência Social; e Capitã Iracema Maschio Figueiredo, ouvidora da corporação.
A entrevista, realizada no Quartel do Alto Comando, durou cerca de três horas. Nela, foram questionadas denúncias como policiais serem obrigados a pedir materiais de trabalho em empresas, uso indevido de viaturas, cotas de multas que Policiais Rodoviários seriam obrigados a aplicar, a questão do estresse, Regulamento Disciplinar do Exército, extorsão e várias outras. Confira os principais trechos da entrevista com o coronel Guaraci:

ASSISTÊNCIA MÉDICA – ‘‘Um dos maiores problemas que temos atualmente, e eu reconheço isso, é a questão da saúde (...) Mas estamos estudando a situação dos policiais militares. Desde maio do ano passado, uma comissão fazendo levantamentos concluiu os trabalhos agora. Esta comissão fez estudos sobre toda a parte de dependentes que temos, número de consultas, quanto custa, número de dependentes do Estado ativos e inativos, os tipos mais comuns de exames que fazem... A partir daí, nós pedimos para Santa Catarina o modelo que foi implantado lá e eu acabei de recebê-lo. Agora, já temos um plano de ação que vai beneficiar interior e capital. Este plano tem algumas limitações, a gente ainda tem que checar detalhes, o valor que implicaria no soldo... Com este estudo em mãos, mandei fazer um outro levando em consideração o nosso rendimento. Estou encaminhando este modelo também à Secretária de Administração para uma análise. Nesta área, nós já estamos trabalhando. Mas temos que fazer bem-feito. Porque nós sabemos que, para um oficial não seria difícil pagar R$ 120,00. Mas para um soldado R$ 50,00 faz muita diferença’’.
DENÚNCIAS – ‘‘Muitas destas coisas aqui (publicadas no jornal) não são verdade. É expressão de meia dúzia de insatisfeitos e, embora não possa deixar de dar atenção, não expressa os valores que temos na corporação. Só de policiais militares somos em 15 mil e outros quatro mil nos Bombeiros. Então é um contigente muito grande e a amostra de descontentes muito pequena, muito insignificante. Mas me preocupou porque eu vi uma instituição com 145 anos de tradição espelhada num jornal com uma série de críticas que afeta a mim e toda a corporação. Estes meninos vão responder judicialmente por tudo o que disseram, vou fazer questão disso. É um direito que me cabe como comandante. Já chamei a assessoria jurídica para avaliar o caso. E eles (os denunciantes) vão ter que provar o que disseram. Na nossa instituição, a partir do momento que eu assumi, aquele que falar alguma coisa vai ter que provar. Todas as denúncias que chegam através da ouvidoria, nós temos ido a fundo, temos verificado. Porque ele não denunciou a nós, primeiro?’’
MATERIAL DE TRABALHO – ‘‘Temos um programa de desembolso de compras de materiais para o ano inteiro, que, através de nossos fundos, é usado para cobrir estas despesas. E esta verba está sendo usada corretamente. Cada comandante, responsável pela área, tem suas contas auditadas pelo Centro de Finanças e que depois vai para o Tribunal de Contas. Os recursos que temos na corporação são empregados estritamente na atividade operacional, na atividade técnica. Então, o Estado Maior acredita que a maioria das queixas sejam totalmente infundadas.’’
CARGA HORÁRIA – ‘‘Alguns policiais reclamam de excesso de trabalho. O que ocorre? Vários profissionais exercem outras funções além da Polícia Militar e acabam tendo problemas para conciliar as duas atividades. Mas a prioridade um é a PM. Então ele tem que cumprir suas obrigações, nas suas 44 horas de trabalho semanais. Esta carga de trabalho inclui todas as atividades, porque, na verdade, ele trabalha em torno de 32, 36 horas normalmente e só vai completá-las nas escalas extraordinárias. O policial rodoviário que faz escalas de 24 por 48 horas não fica o tempo todo na estrada. Ele reveza, dorme, descansa. A Polícia Florestal, por exemplo. Nós temos postos avançados na Serra do Mar onde ficam uma semana trabalhando. Você acha que ele fica 24 horas trabalhando? Ele está no posto, sim, mas ele tem seu horário de lazer, de descanso, faz seu policiamento. Eu chego aqui às 7 da manhã e saio às 9 da noite, nunca reclamei do meu horário de trabalho. É sábado, domingo, se tem alguma coisa de essencial, estou com meu Estado Maior no quartel. Sou um profissional de polícia e serei profissional até o fim.’’
ESTRESSE – ‘‘Na Polícia Militar, nós temos estresse. Isso foi identificado há muito tempo. O fato de ficarmos distantes da família, em operações; os fatores imprevisíveis da nossa profissão; o confronto com o marginal; o juramento que fazemos de defender o cidadão com o sangue e a vida; tudo isto leva ao estresse. Então, a carreira de policial militar não é um simples emprego. Para ser policial tem que ter uma série de características que o induza a pertencer a uma instituição, sabendo do risco que ele corre em todas as atividades que realizamos. O problema foi identificado em uma monografia intitulada Auto-Estima, feita por uma grupo do Curso Superior de Polícia, e que agora está sendo analisada pelo Estado Maior para que sejam tomadas medidas de valorização profissional. O policial militar tem que se sentir bem consigo mesmo dentro da corporação. Isto faz ele sair daqui dentro satisfeito e prestar um bom serviço lá fora, sabendo que ele tem respaldo em relação a sua família, seu patrimônio, saber que ele está escoltado na lei, agindo na lei...’’
SALÁRIOS BAIXOS – ‘‘Eu vim de uma família super-humilde, meu pai era sargento. Eu vim com 16 anos para Curitiba estudar. Estudei em colégio do Estado. Fiz faculdade com meu esforço e meu sacrifício, para chegar onde eu cheguei. Não admito um profissional de polícia com segundo grau falar isto. É alguém que vai passar o resto da vida sendo soldado. Nunca aspirou ser alguma coisa na vida. Um soldado como este tem que pedir baixa e ir embora. Se ele quer ganhar como coronel, estude para isto. Como eu cheguei aqui? Estudando e por esforço próprio. Nunca dependi de ninguém. Só este ano, seis soldados entraram para a Academia (Academia Militar de Guatupê). Este problema de dizer que não pode estudar, que ganha pouco, isto é balela. Se entrou na corporação, sabia que ia ter aquela renumeração e nós abrimos todos os cursos e concursos. Se ele quiser subir, vai ter que se dedicar porque ninguém vai dar nada de mão beijada, nunca.’’
REGULAMENTO DISCIPLINAR (respondida pela capitã Iracema Maschio Figueiredo, ouvidora da PM) – ‘‘Do que eles reclamam do RDE (Regulamento Disciplinar do Exército)? De bater continência? A continência é nosso bom dia. De cumprir ordens? Se não cumprir, como fica a família, a comunidade? Se cobrando uma postura profissional com rigor, já temos problemas com drogas e álcool, com PM assaltando... Se não cobrássemos o que seria da comunidade, que polícia vocês teriam? Se eles reclamam que não podem dar sugestão ao superior imediato, a Ouvidoria Interna foi criada para isto, para que dê sua sugestão, faça sua denúncia. Quem não denuncia é conivente. Se o canal direto tá fechado, entre em contato com o comando. E nem precisa se identificar. Cada batalhão recebeu formulários que podem ser postados sem custos. Só no ano passado, atendemos 421 casos, com sugestões, denúncias e outros assuntos. Todas foram investigadas e tomadas medidas cabíveis. Várias sugestões, como cursos supletivo e de línguas dentro dos quartéis foram implantandas.’’
ATENDIMENTO PSICOLÓGICO – ‘‘Na capital ou no interior o soldado pode entrar em contato com o Serviço de Assistência Social (SAS), que só no ano passado deu acompanhamento psicológico há 242 profissionais, providenciou 92 internações por alcoolismo e dependências clínicas e mais 16 internamentos por problemas psiquiátricos. E está nos nossos planos estender isto, atingir todo o interior. Só que temos que fazer as coisas com calma, assumimos o comando há apenas 90 dias, não dá para fazer tudo assim... Eu só peço um pouquinho de tempo. Nós estamos redimensionando, ajustando tudo para depois agirmos.’’
FUTURO – ‘‘Alguns problemas vêm do passado. Mas nossa intenção é mudar radicalmente. Estamos pensando em transformar o curso de formação de soldados em curso superior estrito senso com 1.500 horas/aula. A lei nos permite, na área de Ciências Policiais. E por que não? Eu prefiro ter um profissional competente, altamente qualificado, eu prefiro que ele evolua. É lógico. Temos deficiências sim, mas temos que ir sanando por partes, começando por prioridades, aquelas que são mais emergentes. Não podemos pegar tudo de uma vez. Hoje, a minha Polícia Militar está dando uma volta de 360 graus. Nós temos que oxigenar, nós temos que mudar, que melhorar. Não existe regresso para minha corporação. Neste primeiro momento estamos dando ênfase ao aspecto operacional. Mas sem nos discuidarmos do problema do eu policial, aquele que entendemos como ser humano, como pessoa, como família. Nós temos alguns problemas mas eles não são da amplitude como estão sendo anunciados. Estes problemas não são a maioria dentro da corporação. Todas as irregularidades serão investigadas.’’
MULTAS E EXTORSÃO – ‘‘Não existe esta coisa de cotas de multas. Nunca seria dada uma ordem como esta. Isto é só para manchar o nome da corporação e aqui tem mais gente honesta que desonesta. Agora, quanto à extorsão, se eu falar que não temos isto, é mentira. Mas estamos trabalhando para acabar com isto. Já foram excluídos vários a bem da disciplina, por ato indigno. Este mês, eu pessoalmente exclui um porque extorquiu R$ 20,00. Mas não importa o valor. Se foi R$ 1, para mim já é o suficiente para sua expulsão. E a comunidade deve denunciar, inclusive para a Ouvidoria.’’Em entrevista exclusiva, comandante da Polícia Militar contesta denúncias de policiais e anuncia mudança na formação de soldados
Kraw PenasDISCORDÂNCIAO comandante-geral da PM, coronel Guaraci Moraes Barros: ‘‘Muitas coisas não são verdade. É expressão de meia dúzia de insatisfeitos’’Kraw Penas‘‘O juramento que fazemos é de defender o cidadão com o sangue e a vida’’

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