Com os argentinos, como os argentinos
A seleção brasileira de futebol não deve desistir da idéia de ser um dream team ou o time dos sonhos apenas pelo fato de haver perdido da Argentina. Este tema vem a calhar neste momento porque os brasileiros que fazem do futebol uma extensão da própria vida amargam a recente derrota, fato que tem sido manchete dos jornais e razão de comentários analíticos em todos os veículos de comunicação. O que não faz sentido é a declaração de um craque da seleção de que o Brasil ''foi surpreendido'' pela Argentina, porque essa surpresa nunca existiu. Jogadores e técnicos sempre conheceram o modelo de jogo dos argentinos, que nunca mudou e cuja característica é a marcação sob pressão a tática de usar três jogadores contra o adversário que está de posse da bola. É assim que os pequenos times da ''várzea'' jogam, até porque todos os jogadores querem participar alucinadamente das jogadas e fazer gol. Não é um futebol bonito e alegre, como se diz do futebol brasileiro pentacampeão mundial afinal os atributos que dão brilho a um time dos sonhos mas incomoda e desarticula o adversário. ''Em Roma, como os romanos'', ensina a sabedoria, significando que quando se visita um lugar deve-se agir segundo os costumes desse lugar. Portanto, ''com os argentinos, como os argentinos''. A típica preguiça tropical brasileira, mais consonante com o jeitinho e menos com o muito esforço, criou também no seu futebol o estilo do toque de bola, da jogada magistral, e menos do corpo a corpo, da obstrução, da trombada, do correr o campo de ponta a ponta e de avançar obstinadamente sobre quem está com a bola. É mais o contrário, ou seja, o jogador esperando que a bola chegue até ele. Os argentinos (e alguns times europeus) adotam a prática de três contra um, para destruir jogadas um vigoroso empenho de energia e assim 10 jogadores convertem-se em 30. Para surpreender os argentinos basta a seleção brasileira fazer o mesmo quando o adversário for esse temido rival. Tão bons quantos os brasileiros, os futebolistas vizinhos têm algo mais, que é esse sistema demolidor. Outro jogador patrício disse que o Brasil jogou mal, mas não se trata popriamente disto e sim que jogou o seu jogo tradicional, quando deveria ter jogado como jogam os argentinos. A isto se chama inteligência estratégica, e adotá-la requererá muita doutrinação e muita disposição física por parte dos jogadores uma radical mudança de hábitos. Se o brilho dos argentinos ''apagou as estrelas do Brasil'', como disse o jornal ''El Clarin'', tal é verdadeiro apenas enquanto passa por baixo dessa constelação uma nuvem espesssa, e esta é representada pela tática argentina. As estrelas continuam, porque elas são perenes, mas nesse nomento ficam realmente ofuscadas. Não há, portanto, surpresa. Os brasileiros é que imaginam vencer esses craques vizinhos com o esquema costumeiro. Sabem que isso tem se revelado muitíssimo difícil e de pouco sucesso. O alerta vale para a seleção e para todos os times que têm de enfrentar essas feras. Vale repetir: ''Com os argentinos, como os argentinos''. Aí a surpresa será deles.





