Joel Samways Neto
Muitos são os fatores que colocam os proprietários de terras produtivas, no Paraná e no Brasil, em desvantagem em relação ao Movimento dos Sem Terra (MST). O primeiro deles é o marketing. O MST tem uma enorme equipe de marketólogos, espalhados no País e no exterior, com trânsito fluente em amplos espaços da mídia. Podem transformar qualquer factóide em propaganda pró-movimento, denegrindo rapidamente a imagem de governos, governantes e de ruralistas. É gente treinada para afirmar o contraditório, a meia-verdade, a fé de ofício na sua versão da história. Por exemplo, repetem, repetem, que o esbulho possessório que praticam se chama ‘‘ocupação’’ – e logo a mídia está reproduzindo esse substantivo, como se o eufemismo pudesse mascarar o fato tipificado penalmente. As milícias do MST, formadas também por mulheres e crianças, eram tidas como contingente desarmado, empunhando apenas ‘‘ferramentas de trabalhar a terra’’ – como se facão e foice não ferissem nem matassem. Só pararam com essa conversa fiada de movimento pacífico quando foram flagrados lançando coquetéis molotov e presos em flagrante por porte ilegal de arma. A assessoria de imprensa, o departamento de comunicação social do MST é de uma eficiência a toda prova. Semana passada, depois que proprietários rurais, no Noroeste do nosso Estado, uniram-se e exerceram o direito estabelecido no artigo 502 do Código Civil dos Estados Unidos do Brasil, e se mantiveram, ou se restituíram, na posse que lhes fora esbulhada pelas milícias do MST, o advogado do movimento apareceu na televisão falando que iria processar os ruralistas por formação de quadrilha, dano moral, patrimonial e uso arbitrário das próprias razões. Parecia o discurso dos advogados dos ruralistas! Como se os sem-terra não invadissem propriedades alheias, produtivas, em bandos, expulsando o dono e seus empregados, derrubando árvores, carneando gado, queimando lavoura etc!
O outro fator de desvantagem para os proprietários rurais de terras produtivas é a prontidão das milícias dos invasores. Desde a anistia, no final do regime militar brasileiro, agentes de ideologias totalitárias vêm trabalhando na formação de quadros para promover a tomada do poder pela via revolucionária. Aos moldes da revolução camponesa, maoísta, ocorrida na China. Há quase vinte anos, pelo menos, os militantes dessa proposta vêm criando centros de treinamento, inicialmente no Rio Grande do Sul e no então Estado do Mato Grosso, para treinar seus integrantes, na ideologia e na disciplina de campo. E para tanto contam até com dinheiro estrangeiro. Enquanto isso, os proprietários de terras produtivas ficam treinando plantar, colher, ordenhar, manejar o pasto, vacinar... com o objetivo de viver e levar o alimento ao prato dos brasileiros. Porque esses proprietários, como quaisquer outros cidadãos neste País, pagam impostos para que a Polícia Militar e as Forças Armadas pratiquem ordem unida, aprendam a manusear armamento e treinem para prestar serviço de segurança pública interna e externa.
Depois que o marketing do MST inaugurou as chamadas ‘‘ocupações políticas’’, ninguém mais ficou a salvo de suas arbitrariedades. Nem o proprietário de terra produtiva cuja área é menor do que a do tal módulo agrário, nem o cidadão urbano que viu a praça pública ser tomada de assalto, loteada e urbanizada. Tudo apenas para fazer pressão contra o governo federal que não cumpre as metas de assentamento exigidas pelo movimento.
Essa situação chegou ao ponto em que chegou graças, sobretudo, à leniência vacilante do governo estadual. A demora, no discurso e na ação, para afirmar a certeza de que as leis que regem o Estado democrático em que vivemos seriam cumpridas, fortaleceu a ousadia das milícias do MST. Foi preciso que os paranaenses vissem cenas de guerra civil deflagrada, com proprietários de terras produtivas indo, pessoalmente, à luta para reaver suas terras (eis que a PM, embora competente, não tinha ordens para proceder as reintegrações de posse determinadas pelo Judiciário). Foi preciso que a tomada da Praça de Salete, em Curitiba (desocupada no sábado) quase se declarasse república. Aí então, e só então, o governo retomou as medidas necessárias, descritas claramente nas normas do nosso pacto social, para salvaguardar a democracia. Dizer que o principal responsável pela questão agrária é a União federal não é desculpa. Isso não é motivo para que o Estado tolere a desordem, o desrespeito à lei, como método de pressão política.
O governador Jaime Lerner declarou que o trato desse problema é como subir uma duna: ora é um passo para frente, ora são dois para trás... Pois é. Por isso que para se subir numa duna é fundamental agilidade e determinação. Para avançar sempre e superar logo.

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