O fracasso na reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) para discutir a Rodada de Doha, encerrada na semana passada em Genebra (Suíça), abalou as relações entre os dois principais parceiros do Mercosul: Brasil e Argentina. Principalmente depois dos Estados Unidos, Índia e China não alcançarem um acordo sobre as tarifas de importação para o setor agrícola.

Enquanto o Brasil defendeu um acordo que abriria o setor industrial dos países menos desenvolvidos, a Argentina rejeitou tal opção, considerando limitada a contrapartida oferecida pelos países ricos na abertura de seus mercados agropecuários. O doutor em Ciências Políticas Gunther Rudzit acredita que chegou a hora da verdade para o Mercosul. Em entrevista à FOLHA, Rudzit ressalta que, se a Argentina mantiver a atual postura, ''vai ser difícil conseguir acordos, ainda mais que os dois governos têm políticas macroeconômicas completamente diferentes''.

Depois do fracasso em Genebra, o ministro das Relações Exteriores Celso Amorim declarou que vai enfatizar negociações que ''dêem resultado'', como as mantidas com os Estados Unidos e a União Européia. É esse o caminho?

Espero que tenha sido uma declaração infeliz do ministro, porque se os outros caminhos são os que dão resultado, o que o Brasil estava fazendo na Rodada de Doha? É nossa única opção, mas ainda acho complicado porque tanto os EUA quanto a UE vão continuar com os mesmos pedidos, principalmente em relação à abertura do mercado industrial. Não tem razão para eles voltarem atrás. Com isso, a relação com vários parceiros estratégicos que se opõem a essa abertura, como a Argentina, deixa o Brasil numa situação bastante complicada.

O secretário de Relações Econômicas Internacionais, Alfredo Chiaradía, principal negociador argentino na OMC, afirmou que o Brasil cedeu muito rápido às pressões dos poderosos, nas discussões da Rodada de Doha. O Brasil não sabe dizer ''não''?
Creio que se trate de mais uma declaração infeliz feita em um momento de nervosismo. Se o Brasil não soubesse dizer não, já teria aceitado as imposições dos países mais fortes na OMC desde a reunião de Cancun, onde teve início todo o processo de Doha e se formou o G-20, sob a coordenação do Brasil. Acredito que o Brasil foi com uma postura favorável a um acordo em que todos têm que ceder para o sistema multilateral de comércio continuar funcionando. Achar que só uns vão ceder e que isso vai resultar num jogo de soma zero, não funciona. A Argentina, que está em uma situação econômica complicadíssima, olhou somente para a sua situação a curto prazo, não levando em consideração todo o sistema multilateral que o mundo está tentando construir.

A Presidente da Argentina disse que as apesar das posições diferentes em Genebra, a integração entre seu país e o Brasil não foi afetada...
Chegou a hora da verdade para o Mercosul, que já é uma união aduaneira imperfeita, com mais exceções do que regras. Se o Brasil quer praticar os acordos bilaterais, a Argentina vai ter que ceder. O que nós temos a ceder é o mercado de serviços e bens industriais. Se a Argentina continuar com essa postura, vai ser difícil conseguir acordos, ainda mais que os dois governos têm políticas macroeconômicas completamente diferentes.

Qual o futuro do Mercosul?
Transformar-se em uma área de livre comércio, liberando seus parceiros a negociar os acordos bilaterais que acharem de seu interesse.

Certa vez, o presidente Lula afirmou que iríamos mudar a geopolítica comercial do mundo. Conseguimos?
O presidente Lula, em parte, tinha razão quando afirmou isso. O problema é que o Brasil não capitaneou esse processo. A geopolítica do mundo mudou porque China e Índia estão crescendo muito rápido, têm mercados muito interessantes e têm poder para negociar e barrar qualquer acordo. Eles têm liderança pra isso.

Após o fracasso nas negociações da Rodada de Doha, o senhor acredita que China e Índia voltem atrás no pedido de maior salvaguarda de seus mercados?
Não acredito, ainda mais numa época em que os preços dos alimentos estão disparando. Estamos falando de 2,5 bilhões de pessoas que integram as duas maiores economias emergentes do Planeta. A China é o chão de fábrica do mundo, então não tem como achar que dá para fazer qualquer acordo sem levar em consideração esses dois grandes atores. A realidade econômica mudou e, portanto, a forma de negociação também.

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