Colapso nos transportes e portos
PUBLICAÇÃO
domingo, 28 de março de 2004
OPINIÃO DA FOLHA 
Feliz de um povo cuja produção de alimentos chega ao ponto de provocar congestionamento no sistema de transporte desses bens e na iminência de colapso nos portos exportadores. Mas não pode ser festejada a negligência do Governo, que não acompanhou o crescimento da agricultura e da pecuária e não realizou a parte de complementação que lhe compete a de aparelhar estradas, ferrovias, vias fluviais, terminais portuários e todos os mecanismos afins, compreendendo os de logística. O produtor rural compareceu com a sua parcela, produzindo com suficiência e qualidade, mas o poder público não, a demonstrar que a iniciativa privada responde positivamente aos desafios, mas o sistema governamental perde-se em discursos inócuos e na obsessão por auto-garantir-se no poder, revelando-se inepto no gerenciamento da parceria que lhe cabe no processo desenvolvimentista.
O País produz, tem necessidade de abastecer o mercado interno e de exportar, há compradores internacionais interessados, mas as estradas brasileiras estão incapacitadas para receber tamanha demanda de caminhões com suas cargas, rumo aos centros consumidores e terminais de exportação; o acesso e a dinâmica dos portos são problemáticos tendo-se agora, mais uma vez e mais acentuadamente, o exemplo paranaense do congestionamento da rota rodoviária para Paranaguá e a situação de incapacidade instalada e de logística do porto, que retém caminhões e navios (e com o porto de Santos não é diferente); os terminais de armazenamento, ali e em todo o sistema portuário do Brasil, são de modo geral insuficientes. Todos esses gargalos, associados à burocracia emperradora, causam gigantescos prejuízos internos e reduzem a competitividade dos produtos brasileiros inseridos na pauta do mercado externo.
Decorre um longo período de ausência de investimentos nos setores de escoamento da produção nacional e não só a do campo porque o Governo, em todos os seus escalões, é inoperante, negligente e mau gerenciador, embora queira cuidar de tudo, porque tudo neste país esbarra nas ingerências e deliberações do poder público. Há um flagrante descompasso entre os Governos, com seu desempenho sofrível, e o novo Brasil agropecuário que desponta, favorecido pela nova mentalidade gerencial que impera e pela tecnologia, com resultados supreendentes de aumento de produção e produtividade. Voltando-se a Paranaguá, a situação ali é considerada ainda mais crítica, porque o transporte ferroviário é insuficiente e os caminhões carregados sobrecarregam a rodovia, com congestionamentos que têm chegado a 140 quilômetros de extensão. E um navio parado, segundo foi publicado ontem neste jornal, custa US$ 50 mil diários à empresa exportadora.
Teme-se por estrangulamentos futuros no sistema escoador, porque as safras agrícolas continuarão aumentando e não há projetos oficiais de atender a essa demanda. Na esfera do Governo federal, especialmente, tais preocupações não parecem prioritárias, porque nem sequer estão sendo discutidas. Pouco valem viagens propagandísticas do presidente da República e respectivas caravanas ao exterior, no afã de abrir mercados, se a infra-estrutura interna permanece inadequada e não se implanta a estratégia necessária. O aumento das exportações não ocorre por mérito do Governo, embora seja ele o grande alardeador desse resultado, e sim pela capacidade produtiva do empresário brasileiro e suas prospecções em busca de espaço para o produto nacional.


