Colapso do centro da cidade - Jaques Brand
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de janeiro de 1998
Jaques Brand 
Gangues de rua dominam hoje a região central de Curitiba. As Ruas Riachuelo e Barão do Cerro Azul - que servem de corredor entre o comércio do Calçadão da Rua da Flores e o Shopping Mueller - perderam a paz. A velha Rua São Francisco, povoada de restaurantes, papelarias, confeitarias e do velho Hospital, é hoje um passeio arriscado. Treze de Maio, especialmente no trecho entre Riachuelo e Teatro Guaíra, nem pensar em andar por ali. Cuidado com a Praça Generoso Marques e a Travessa Moreira Garcez. Cautela na Alfredo Bufren. A Presidente Faria hoje é um perigo, maior ainda nas imediações da Treze de Maio e Passeio Público.
Difícil de acreditar? Pergunte aos comerciantes da região. Pergunte aos porteiros dos edifícios. Pergunte ao Paulinho de Jesus, mestre titereteiro, morador de uma galeria aqui perto, que está de olho roxo da agressão covarde que sofreu de um grupo de cinco, seis jovens bandidos. O folguista de sábado aqui no prédio contou dezoito assaltos em uma só noite. A vizinha do sexto andar foi assaltada essa semana. O vizinho do nono, ontem. Todo dia, toda noite, tem assalto ali na esquina, lá no meio da quadra, lá na outra esquina, lá na outra de baixo, lá na outra de cima.
Adianta chamar a polícia? Do meu mirante, na sacada do apartamento, observo um padrão de atuação policial. Viaturas da PM circulam com velocidade e frequências variáveis. Ultimamente, com frequência até maior, em razão da multiplicação das denúncias. É o método suasório. Serve para inibir, na teoria. Foi empregado com grande intensidade na noite de Ano Novo, quando a prefeitura promoveu a festa popular na Praça da Ordem. Outra espécie de atuação da PM é a blitz. De vez em quando, com intervalos de dois ou três meses, uma blitz acontece na esquina de Riachuelo com Bufrem.
Nada disso impede a incrível sequência de assaltos. Nada disso impede que hoje à noite, por exemplo, os moradores do nossos prédio estejam sitiados em seu próprio endereço, com bandos de marginais lá em baixo, à espreita, gritando a noite inteira. Mais uma vez, vou ligar para o número 190, invocar - no mínimo - a Lei do Silêncio. Mais uma vez, algumas viaturas da Polícia Militar devem circular ali em baixo.
Nos limites estritos de respeito aos direitos, o comando da Polícia Militar poderia empregar outros meios de dissuasão, intensificando - exemplo banal - a exigência de documentos. A prostituição não é um delito? A prefeitura, em vez de conceder novos alvarás aos muitos novos botequins e hotéis de rotatividade da região, como vem fazendo, pode intensificar a fiscalização e - com firmeza - cassá-los. Os prédios sinistrados - com o belo casarão antigo da Riachuelo, queimado há poucos meses - estão servindo como reduto e rota de fuga habitual de assaltantes. O que espera a prefeitura para interditar e mesmo desapropriar esses imóveis, criando ali espaços públicos de sadia convivência?
Tenho ouvido teorias conspiratórias sobre o colapso da segurança no centro de Curitiba. Dizem uns que uma parte do comando da PM, por fria deliberação, deixa que o centro se degrade, para minar - em seu coração - a imagem do governo do Estado, montada sobre a idéia de uma Capital afável, segura e criativa. Dizem outros que está em curso uma gigantesca operação de especulação imobiliária, que aposta na desvalorização momentânea dessa região central, para comprar barato terrenos de valor potencialmente astronômico.
Não consigo rezar por essas cartilhas. Como repórter, cumpro a obrigação profissional de informar que algo de grave está acontecendo. Como um cidadão qualquer, venho exigir a atuação urgente e efetiva do Estado na garantia dos meus direitos, e da população que vive nesse bairro chamado Centro. Fico imaginado a fria em que entram os turistas - indefesos, desarmados - quando topam um passeio pela Curitiba antiga.
As alternativas colocadas para os governos Lerner e Taniguchi são de garantir a segurança do Centro, imediatamente, sem tergiversação, com medidas articuladas, estáveis e permanentes; ou admitir de uma vez por todas que perderam o controle da situação.


