Coisas religiosas e mundanas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 10 de setembro de 2004
Antonio Carlos Barro 
''Sonho com o dia em que a justiça correrá como água e a retidão como um caudaloso rio'', Martin Luther King.
Quem não conhece a Bíblia pensa que ela apenas fala de ''coisas religiosas'' e que ela não está interessada nas coisas deste mundo ou do nosso dia-a-dia. Esse é um engano terrível que algumas pessoas querem perpetuar com palavras de ordem tais como: ''religião é para dentro da igreja''; ''religião e política não se misturam''; ''religião e futebol não se discutem''. Ora, isso é uma tremenda balela e uma grande mentira. O que se pretende dizer é mais ou menos isso: ''Quem é religioso cuide das coisas de Deus e nós que somos políticos ou empresários cuidamos das outras coisas. Elas não se misturam''.
Que coisa mais absurda! A Bíblia não conhece nenhuma divisão no ser humano. Em um lugar ele é religioso, mas quando sai daquele lugar ele pode ser o quiser sem a que a religião possa lhe dizer qualquer coisa. Estava certo Mahatma Gandhi quando disse: ''Um homem não pode fazer o certo numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível''.
Aqui no Brasil essa frase de Gandhi é quase uma heresia. Acho inadmissível que nesse Brasil as coisas funcionem com essas categorias dicotomizadas. O Brasil é considerado um país essencialmente cristão, povoado por católicos e evangélicos. Se esse é um país cristão, logo a Bíblia é o livro que deveria reger a conduta, a ética, os princípios e os valores da nossa gente. Como os políticos e outros poderosos raramente lêem a Bíblia, cabe à igreja dizer a eles a respeito da vontade de Deus. Cabe à igreja pregar contra os desmandos, contra o roubo e contra a corrupção que grassa a nação.
Agora, quando isso acontece o que é que ouvimos? ''Lugar de religião é na igreja'', ''a igreja tem que trazer consolo para os aflitos'', e a ladainha vai por aí afora. É hora de a igreja colocar para fora a sua voz profética e anunciar não somente a bondade de Deus, mas também a sua severidade e o seu julgamento. Não dá mais para aguentar tamanho cinismo dos nossos políticos. Não são eles também frequentadores de igreja? Quando vão na igreja o que é que aprendem? E se aprendem quando é que vão colocar em prática?
Todos nós compareceremos diante do tribunal de Deus e naquela hora ninguém vai poder dizer: ''Mas, Senhor, tudo isso que eu fiz foi fora da igreja, foi na minha vida secular, foi no mundo''. É tarde!
ANTONIO CARLOS BARRO é professor da Faculdade Teológica Sul-Americana em Londrina


