Ainda que a conversa sobre o câmbio incomode o Sr. Presidente, os súditos leais têm de expor as suas reflexões pelo menos por lealdade. Entre a codorninha ‘‘truffée’’ degustada à luz de vela no palácio Imperial de Petrópolis e a buchada servida na mesa nua no Nordeste, ‘‘II Y a loin’’ como diriam os franceses, para refletir a incerteza das coisas humanas.
A taxa de câmbio é importante, porque ela determina uma parte do emprego e do possível nível de atividade dos setores não-financeiros da economia. Como o movimento de capitais é quantativamente maior do que o movimento de bens e serviços, uma taxa de juros superior à mundial, por exemplo, atrai recursos financeiros que valorizam o câmbio em detrimento das atividades não financeiras.
Consideremos o conjunto de todos os bens produzidos no país e potencialmente exportáveis, isto é, o conjunto de todos os bens que em circunstâncias adequadas poderiam ser transacionados no comércio mundial. Quais desses bens serão efetivamente exportados? Para simplificar ignoremos o custo de transporte e as barreiras administrativas e alfandegárias dos potenciais compradores. Seja um bem qualquer, que se vende no mercado interno por R$ 100,00 a unidade, mas que vale nos EUA, por exemplo, 80 dólares. Se a taxa de câmbio for 1,04 Reais/Dólar o bem não poderá ser exportado, porque o seu preço seria de 96 dólares. Mas se a taxa de câmbio fosse de 1,25, ele estaria no limiar da exportação, porque o seu preço seria de 80 dólares.
Fica evidente que para cada taxa de câmbio nominal, existe um subconjunto de bens potencialmente exportáveis. A fronteira desse subconjunto é constituída de todos os bens cujos preços em reais, divididos pela taxa de câmbio, são iguais ao preço externo do mesmo produto. Logo só existem três maneiras de ampliar essa fronteira: 1) reduzindo o preço em reais do produto potencialmente exportável; 2) aumentando a taxa de câmbio; 3) aumentando os preços externos em dólares.
A terceira hipótese está completamente fora de nosso controle. Como se pode reduzir o preço interno? Por uma redução das margens de lucro, por uma redução do salário ou por um aumento da produtividade do trabalho. A redução da margem de lucro compromete a capacidade de investimento e dificulta a utilização de tecnologias que produziam o aumento da produtividade. Como o preço em dólares do produto é (pelo menos numa primeira aproximação) proporcional ao salário medido em dólares, resta a redução do salário nominal.
É por isso que umas das melhores medidas para definir a fronteira dos bens potencialmente exportáveis é a relação salário/câmbio. Essa relação praticamente dobrou entre o primeiro semestre de 1994 e o último semestre de 1996. Mesmo considerando um duvidoso aumento de produtividade de 5% ao ano, fica claro que o retorno à fronteira de 1994 não pode ser feito sem alguma alteração do câmbio.
Antes de começar a campanha do ‘‘FICO’’ o Presidente deveria pensar nisso, iniciando pela desagradável tarefa de cortar o déficit público...

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