A 17ª Regional de Saúde de Londrina registrou 396 casos de dengue entre agosto de 2015 e o começo do ano. É a segunda regional com maior número de casos registrados no Paraná, ficando atrás apenas de Paranaguá, com 494 casos. O Estado registrou 1.726 casos da doença. No último boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), na semana passada, Guaraci (distante 78 km de Londrina) aparece como um dos cinco municípios paranaenses em situação de epidemia de dengue.

A diretora regional, Terezinha de Fátima Sanchez, afirma que a infestação do Aedes aegypti na região é grave e não deve ser tratada apenas pelos setores de saúde, mas envolver todos os órgãos dos municípios. Para combater o mosquito, ela buscou aliados junto ao Ministério Público. Em setembro, foi realizada uma reunião para apresentar a realidade dos municípios e como cada um tem feito seu dever de casa.

Segundo a diretora, nem todos os gestores municipais estão cumprindo as ações de combate à dengue e há desperdício de recursos liberados pelo governo do Estado. Em 2015, a regional recebeu R$ 7 milhões para aplicar em ações contra a dengue. Terezinha é enfática ao dizer que os municípios não podem usar a falta de dinheiro como desculpa para não entrar na guerra contra o mosquito.

Qual é a realidade dos municípios da região em relação à dengue?
Na nossa regional todos os municípios têm índice de infestação do Aedes aegypti preocupante. Temos municípios mais silenciosos, com uma situação mais tranquila, como por exemplo Pitangueiras, Prado Ferreira, Sertanópolis, que fez um trabalho muito bom ano passado e está com a população bem mobilizada, assim como Florestópolis. Por outro lado, temos cidades como Guaraci, com uma infestação alta e muito mais (em imóveis) domiciliares do que públicos. Tem casas com dois ou três focos. É uma população de pessoas mais idosas, que tem o costume de guardar água de reuso e acumuladora.

Nos relatórios dos últimos dois anos, Cambé e Ibiporã aparecem entre as cidades com números altos de casos de dengue. Como está a situação nestes municípios?

A situação não está tão complicada. Cambé teve uma grande infestação no começo do ano passado. Ibiporã, apesar do trabalho que eles fazem, continua com índices altos. Mas estamos mais preocupados com Assaí e Guaraci, que estão com números altos.

Mas são casos de dengue ou infestação do Aedes aegypti?

Assaí tem muito mosquito por metro quadrado. A infestação é grande. Há muitos focos dentro dos domicílios. O perfil da população também é de pessoas mais idosas e acumuladoras. Alvorada do Sul, que era um município que nos preocupava muito, tem se empenhado na campanha e tem feito um bom trabalho. Os demais municípios estão terminando os seus levantamentos.

De que forma o governo estadual está ajudando os municípios da região no combate ao Aedes aegypti?

O governo do Estado repassou um dinheiro extra aos municípios para controle da infestação. Repassamos R$ 1,79 por habitante. Os municípios com menos de 4 mil habitantes receberam um valor fixo de R$ 8 mil e os municípios acima de 400 mil habitantes receberam R$ 400 mil. Esse dinheiro é além do VigiaSUS (programa de qualificação em saúde do Paraná). No ano passado, Londrina, por exemplo, recebeu em torno de R$ 1,3 milhão só para cuidar de dengue. Toda a regional recebeu R$ 7 milhões. O que nos preocupa é que continuamos tendo cidades com infestação. Em setembro, fizemos uma reunião com os promotores de saúde de toda a região, no sentido de esclarecer o Ministério Público sobre quais eram as condições da nossa regional. Passamos os números de infestação e casos de dengue, as ações que os municípios tinham que desenvolver e não fizeram, o número de agentes de endemias que cada município deveria ter e quantos eles tinham. Também mostramos como e para que os prefeitos estavam usando o dinheiro do VigiaSus.

Qual foi o objetivo desta reunião com o MP?

Chamamos o Ministério Público para uma conscientização sobre a situação da dengue e o que a Saúde estava fazendo. Chamamos outros envolvidos, porque nós entendemos que não é a Saúde que tem que limpar quintal. A nossa obrigação é controlar os números, alertar para os problemas, mostrar onde estão os focos, se eles estão dentro do domicílio, se é em via pública, no lixo espalhado nos terrenos baldios. Mas tirar o lixo de lá é responsabilidade de outro órgão. Estamos fazendo o nosso serviço e o dos outros, claro que não vamos dar conta. Os outros atores precisam trabalhar e fazer a sua obrigação. Não podemos ficar resolvendo questões de limpeza pública e saneamento. Os promotores já fizeram recomendações aos municípios e deram prazos para a execução das ações.

O que o Ministério Público recomendou aos municípios?

Mais mobilização no combate à dengue, estabelecimento de quantidade mínima de agentes, (definição de) onde serão atendidos os pacientes com dengue, qual a estratégia de assistência ao paciente. Nós cobramos, mas não temos poder de polícia. Eu só assessoro e oriento, mas o Ministério Público pode inclusive mandar prender o prefeito. E o Ministério Público tem sido muito parceiro da regional.

Qual tem sido a estratégia dos municípios para o combate ao mosquito da dengue?

O primeiro passo é fazer o índice de infestação predial. Tendo esse índice, vamos conhecer os municípios com maior índice. Uma ação que não pode deixar de acontecer é a ação de bloqueio dos casos suspeitos. A partir do momento que entra a notificação no posto de saúde, ela é passada aos agentes de endemias, que vão fazer o levantamento dos focos, eliminar os criadouros e fazer a UBV costal (aplicação de veneno) em um raio de 300 metros.

Essa ação é feita a partir da notificação do caso de dengue ou também quando são encontrados focos do mosquito?

Esse é o bloqueio de casos. A melhor ação que existe é de UBV costal, você joga o veneno naqueles três quarteirões em volta da casa do suspeito. Com isso, vai eliminar possíveis criadouros, o mosquito que está voando e vai instabilizar a fêmea. A segunda ação é a busca ativa de outros casos. Esse trabalho é feito com agentes comunitários e não mais com os de endemias. Além disso, medicação e avaliação dos exames dos pacientes suspeitos. Isso não pode faltar. As outras ações, de limpeza, identificação de outros criadouros e políticas de educação sanitária, são criadas pelos comitês dos municípios que discutem semanalmente como agir.

O que municípios como Sertanópolis fizeram para conseguir reduzir os índices de infestação do Aedes aegypti?

Eles fizeram a tarefa de casa certinha. Não pularem ciclos, não deram folga. Tinham o número certo de funcionários, que visitaram todas as casas que tinham que visitar. Eles simplesmente cumpriram o que estava previsto. O grande problema é que as pessoas estão cansadas da dengue. Quando falamos de dengue tem gente que senta, que espera...

Você está falando de agentes de saúde?

Sim. Agentes de saúde e comunitários. As próprias famílias que são notificadas, que têm lá seu criadouro, não estão mais preocupadas. Porque dengue já caiu na rotina das pessoas. Cada vez que você vai ao mercado, sai de lá com meia dúzia de novos criadouros. Você traz a sacolinha, o potinho de iogurte.

Se dengue é um assunto recorrente, por que ainda existem esses índices altos de infestação do mosquito? O que está faltando para erradicar o Aedes aegypti?

Acho que as pessoas negligenciam o cuidado sanitário e a limpeza pública. E elas já se acostumaram (com o fato de) que a dengue é uma doença que acontece mais no verão. Mesmo que o governo tenha liberado muito dinheiro, nem todos têm executado as tarefas de forma correta. Por isso, chamamos o Ministério Público para nos ajudar a cobrar mais ações.

Você está dizendo que os municípios, ao invés de usar o dinheiro para combate à dengue, estão utilizando para outros fins?

Estão usando no combate à dengue, mas de forma ineficiente.

E quais as justificativas para este uso ineficiente do dinheiro?

Eles (municípios) não alegam nada. Alguns prefeitos dizem que subiu demais a infestação em função das chuvas. Eles têm sempre desculpas. São poucos os prefeitos que vão à luta e que têm uma política de educação continuada. A maioria faz um período e para.

O Brasil está enfrentando um tríplice problema relacionado ao Aedes aegypti, com a dengue, febre chikungunya e zika. Já se pensa em mudar as estratégias de combate a essas doenças?

Não existe outra tarefa além de eliminar o criadouro.

Por que a 17ª Regional de Saúde sempre figura no topo da lista em número de casos de dengue no Estado?
Batemos novamente no fato de termos uma população mais idosa e acumuladora. A nossa população passou por tantos problemas de recessão e somos descendentes de europeus, que já tinham o costume de guardar tudo. Vivemos numa comunidade que tem este costume. Uma das coisas é esta questão cultural. A outra é que somos a segunda maior regional. São 21 municípios na regional. Tem regionais com mais municípios, mas a nossa população é maior.

A crise econômica tem forçado os municípios a cortar custos. Há preocupação de que eles deixem de investir no combate à dengue para economizar?

Não, porque o Estado deu dinheiro para que eles façam as ações. Dizer que não fez porque não tem dinheiro é mentira, porque o Estado deu. Para esta ação, o Paraná aportou recurso, diferente de outros estados. Ninguém tem falta de dinheiro para a dengue.

Está prevista a liberação de mais recursos?

Não. Agora eles (municípios) têm que gastar e prestar contas do que foi liberado no fim do ano passado.

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